segunda-feira, julho 02, 2018

ENTRE O INTERESSE E O DEJÁ VU

CRÉDITOS COMPLETOS

Não faltam no cinema histórias de estranguladores a atacar meninas em desespero, a maioria deles de qualidade duvidosa e como veiculo para servir cenas de jovens em topless. Há, por outro lado, exemplos de excelência, no topo dos quais coloco "Frenzy" de Alfred Hitchcock e o seu Robert Rusk que aterrorizava Londres de gravata na mão. Mas há mais: "The Hillside Strangler" de Cuck Parello, precedido em 1989 pela série de TV "The Case of the Hillside Stranglers" de Steve Gethers, ou o negro "The Boston Strangler" de Richard Fleischer, com Tony Curtis e Henry Fonda a brilhar como nunca. Não esquecer ainda que uma das cenas mais famosas de "Halloween" de John Carpenter é a morte da bela Lynda, às mãos de Michael Meyrs, que apesar de preferir brincar com facas, decide usar a corda do telefone para a sua vitima seminua e de camisa aberta.


É por tudo isto que um filme como "A Martifüi Rém" (traduzido para o inglês como "Strangled") corre o risco de passar completamente despercebido ou, o que é ainda pior, ser olhado de lado como mais um "despacha beldades de mamas à mostra", pelo que passou directamente para as prateleiras do clube de vídeo, se é que alguma vez teve a mais pequena oportunidade numa sala de cinema em Portugal, por mais obscura que seja.


O principal defeito de "A Martifüi Rém" é as inúmeras referências que lhe vêem coladas e às quais nunca renuncia, assumindo-as como suas sem pudor. O realizador Árpád Sopsits faz uma pilhagem descarada a todas as cenas que o cinema já nos mostrou antes, mistura-as, agita-as em cocktail e devolve-nos tudo tal e qual como já tínhamos visto anteriormente. À primeira vista, não há nada de novo aqui, apenas a história (neste caso, verdadeira) de um psicopata que se excita a estrangular mulheres - literalmente, neste filme especifico.


Mas este filme também tem qualidades e a principal é a honestidade de não querer parecer o que não é, fazendo com que o espectador nunca se sinta enganado. Durante toda a acção, os actores desempenham um papel que representam honestamente, sem brilhantismo mas com sinceridade, o realizador não se mete onde não deve, dirigindo honestamente uma produção que não tem nada mais a desejar do que o que está à vista. É uma obra que faz jus ao ditado português que "quem dá o que tem, a mais não é obrigado".


Por outro lado, a simplicidade: parco de recursos - pelo menos para os padrões a que estamos habituados -, o filme consegue criar um interesse inusitado na investigação policial, apesar da história nos ser contada em flash-back pelo próprio assassino, o que, vendo bem as coisas, anula qualquer sensação de suspense. Apesar disso, os espectadores que gostam de juntar pedaços de pistas não ficarão desiludidos com o desenrolar da acção, olhada do ponto de vista da equipa de inspectores.


"A Martifüi Rém" irá desagradar a alguns: é um óbvio dejá vu; irá, no entanto, agradar a muitos: os que gostam de juntar peças de puzzles e os que gostam de simples histórias de "stalkers" e serial-killers. Afinal, é uma excelente alternativa à massificada produção americana, servida por uma realização competente e por actores empenhados.

sexta-feira, maio 11, 2018

UM RESTAURO DE PROFISSIONAIS

A Agente Vermelha: CRÉDITOS COMPLETOS

Há duas premissas que devem, desde já, ficar estabelecidas nesta pequena crónica: a primeira, diz respeito à obra de Jason Matthews, que nunca li, mas, tanto quanto sei, é extremamente complexa; a segunda, diz respeito a Jennifer Lawrence - a revolucionária Katniss Everdeen da série "The Hunger Games", a teimosa Ree de "Despojos de Inverno" ou a assustada Elissa de "A Casa do Fim da Rua". Por muito mau que qualquer filme possa ser, com ela no ecrã serão sempre duas horas de prazer, só por olhar.


Claro que aquela última parte é uma brincadeira, mas este vosso humilde escriba não é de ferro, até porque, verdade verdadinha, "Red Sparrow" é notavelmente interessante. Enquanto Francis Lawrence se tenta libertar das amarras de "The Hunger Games" - coisa que Peter Jackson, por exemplo, nunca conseguiu em relação a "O Senhor dos Aneis" -, Justin Haythe consegue um argumento, mesmo que adaptado, consistente e o grupo de actores, apesar de vários nomes sonantes do universo hollywoodesco, está aqui de corpo e alma, representado o seu papel de forma convincente.


As guerras de espiões entre russos e americanos são antigas e a politica actual volta a alimentar casos de guerra fria com novos interesses e mistérios renovados. "Red Sparrow" não deixa de navegar na onda de suspeitas e medos que alimentam as noticias de hoje, escarrapachadas em todas as primeiras páginas dos jornais e aberturas de noticiários de TV: Dominika Egorova (Jennifer Lawrence), bailarina russa, é contratada pelos serviços secretos da Rússia, para seduzir e apoderar-se dos segredos do agente da CIA, Nate Nash (Joel Edgerton). Tão simples como isto.


O que surpreende no filme, é como Francis Lawrence, recorrendo a um argumentista engenhoso e a um conjunto de actores excelente, faz uma obra interessante e apelativa, com ritmo e suspense, a partir de uma premissa já mais que gasta no cinema e na literatura. O que poderia ser um continuado bocejo, um tortuoso déjà vu, parece novo ou devidamente restaurado. O espectador embrenha-se e segue interessado toda a acção, como se estivesse perante um original luminoso.


E a verdade é que tudo isto é conseguido sem serem precisas grandes correrias, bastando uma velocidade de cruzeiro aparentemente lenta, mas que, por isso mesmo, deixa que as pequenas surpresas rebentem na cara da plateia com mais estrondo. Como um carro de alta potência que, mesmo em marcha lenta, exibe todas as potencialidades que parece esconder. Quando a acção de "Red Sparrow" dá a impressão de estar a estagnar, Francis Lawrence mete uma mudança abaixo e dispara sem que a concorrência consiga segura-lo. Depois volta a (quase) parar para deleite do condutor, que deixou os adversários lá atrás, a uma distância considerável.


Sim, é verdade que eu, pessoalmente, tenho um fraquinho por Jennifer Lawrence - assumo -, mas não é por isso que "Red Sparrow" vale a pena, até porque, como se lembram, não tive problema em torcer o nariz a "Joy" lá para os idos 2016. Não. Este filme é uma versão restaurada das velhas histórias de espiões, das antigas guerras entre russos e americanos, só que é um restauro feito por profissionais de elevadíssima competência. Uma obra nova - ou renovada, se preferirem - a partir de cacos velhos.

terça-feira, maio 08, 2018

PARA LÁ DO MURO

As Vidas dos Outros: CRÉDITOS COMPLETOS

O muro que dividiu Berlim até 1989 é uma excelente metáfora para este "Das Leben der Anderen", um filme com 12 anos, que não cabe na luta de bilheteiras das produções Nexflix e Amazon. Esta é uma obra que joga noutro campeonato, que se cola à pele do espectador para toda a vida, vinda das mãos de Florian Henckel von Donnersmarck, que depois de aliciado por Hollywood, nos trouxe um dos mais interessantes (não necessariamente "melhores") "tiro neles" dos últimos tempos: "O Turista", com Angelina Jolie e Johnny Depp.


Vencedor do Óscar para melhor filme estrangeiro e nomeado para os Globos de Ouro em 2007 e vencedor do Prémio de Cinema Europeu em 2006, "Das Leben der Anderen" coloca o espectador na posição de espreitar pela fechadura da intimidade dos outros, como uma criança, como "O Vigilante" de Francis Ford Coppola ou "Blow Out - Explosão" de Brian De Palma só que enquanto Harry, do primeiro, e Jack, do segundo, tinham um propósito concreto, o agente Wiesler (Ulrich Mühe) de Donnersmarck deixa-se envolver numa teia de voyerismo (quase) sem sentido.


Na Alemanha Democrática de 1984, o escritor Georg Dreyman (Sebastian Koch) é alvo de vigilância discreta mas apertada da Stasi. Essa vigilância, liderada pelo competente agente Gerd Wiesler, vai acabar por obcecar o investigador, não necessariamente pelos motivos inicialmente previstos, mas porque alguém sem vida se intrometeu na vida de alguém com existência - se é que me faço perceber...


Embora Florian Henckel von Donnersmarck não renuncie a expor os métodos e os podres da velha Alemanha comunista, "Das Leben der Anderen" não é obviamente um filme politico, no sentido em que o regime serve apenas de pano de fundo para explicar o fundamento da acção. Esta é uma obra existencialista, que põe em confronto a vida de duas pessoas e é nesse sentido que toda a trama se desenrola. A obsessão do Partido por Dreyman não se deve às suas actividades subversivas, mas por o encarar como um rival entre a bela Christa-Maria Sieland (Martina Gedeck).


"Das Leben der Anderen" é ao mesmo tempo feroz e glamoroso, negro e luminoso, feliz e infeliz. Uma experiência que se pode contrapor ao sorridente "Adeus, Lenin!" de Wolfgang Becker. Será sentimentalista? Será humanista? Seja como for, é uma luz ao fundo do túnel, no sentido em que, mesmo sob os regimes mais rigorosos, o mais tecnocrata dos cidadãos pode revelar pequenas centelhas de rebelião e emocionar-se com um sussurro de prazer.

segunda-feira, maio 07, 2018

O "FILME NOIR" TEM FUTURO?

CRÉDITOS COMPLETOS

"Anon" é um filme desconcertante em (quase) todos os sentidos: a história está mais que vista (vem de "Admirável Mundo Novo" de H. G. Wells e, acima de tudo, de "1984" de George Orwell); é nitidamente um "série B", de orçamento limitado e sem recursos para efeitos especiais e outros subterfúgios; já foi filmada inúmeras vezes (de "Relatório Minoritário" à série de TV "Sob Suspeita") e, no entanto, o realizador Andrew Niccol e a sua equipa de actores e técnicos, apresenta um produto interessante, um "filme negro" de ficção cientifica que tem o espectador na mão do principio ao fim, bem construído, bem dirigido, bem interpretado.

Num mundo cinzento, com colorido apenas ocasional, onde tudo está devidamente catalogado e identificado, o detective Sal Frieland (Clive Owen) é confrontado com uma série de crimes cometidos por uma mulher não identificada, interpretada por Amanda Seyfried, uma falha no sistema que irá provocar um terramoto numa sociedade onde tudo está etiquetado e devidamente colocado no seu lugar.


E se contado assim, nada parece realmente original, a verdade é que o filme tem um ritmo muito próprio e uma história desenrolada com desenvoltura - apesar de sem pressas, porque não é da acção e da velocidade que o filme é feito. Se é verdade que "Anon" não é uma obra prima do cinema, não irá para a lista dos filmes da vida de ninguém, também é verdade que são duas horas de entretenimento, feitas não só a pensar na bilheteira, mas acima de tudo a pensar em divertimento de qualidade.


"Anon" é mais que uma tarde bem passada no cinema. É um filme interessante, que merece ser visto com atenção. Recupera o sentido do termo "femme fatale" e, apesar de ser nitidamente passado em ambiente de ficção cientifica, é também o que já se chamou "filme negro", é um thriller muito bem construído, que, apesar de não fazer do mistério a sua principal arma, tem suspense e mantém a plateia atenta ao ecrã com facilidade.


Clive Owen e Amanda Seyfried fazem mais do que lhes compete. Empenham-se e são dirigidos com mão segura por Andrew Niccol - que não é propriamente um ignorante na arte da realização e da escrita de argumentos: idealizou, por exemplo, o "Terminal de Aeroporto" para Steven Spielberg e fez "Nómada" ou "Gattaca". O principal problema de "Anon" será as inúmeras referencias que muitos espectadores irão encontrar, remetendo-os a obras anteriores, cinematográficas ou não.


Não sendo o mais original dos filmes, é, apesar de tudo, puro entretenimento de qualidade, pelo menos para aqueles espectadores que não se deixarem dominar por todas as pequenas coisas que irão encontrar a cada passo. Quem se deixar levar sem cinto de segurança, vai ter um passeio bem divertido, um thriller "B" sem preconceitos.

terça-feira, maio 01, 2018

SABOREAR DEVAGAR

CRÉDITOS COMPLETOS

"Automata" não é para quem tem pressas, tem de ser saboreado devagar, como aqueles caramelos que se vão derretendo na boca a pouco e pouco, residindo precisamente aí o supremo do divertimento. Sem que a história seja particularmente original, vive dum argumento consistente, que se vai desenrolando em crescendo, duma realização segura, mesmo que vinda das mãos de um quase novato, e de várias interpretações brilhantes, com Antonio Banderas á cabeça, num daqueles papeis "à Almodóvar", onde a exuberância é secundária, mas a consistência é fundamental.


Passado num ambiente pós-apocalíptico muito próximo de "Blade Runner", "Automata" conta a história da descida ao inferno de Jacq Vaucan (Antonio Banderas), perito de seguros, especializado em robôs que violam o protocolo de não se poderem alterar a si próprios. O estranho caso de um policia que abateu uma das máquinas, alegando que ela se estava a auto-modificar, vai levar o investigador descobrir segredos que deviam ficar ocultos.


Se têm filhos pequenos e gostaram da animação "Wall-E", podem encarar este "Automata" como a versão para adultos do filme da Pixar, só que mais negro, deprimente e duma violência de cortar a respiração, não apenas visual mas - e principalmente - pressentida. Jacq Vaucan está emocionalmente à beira do abismo quando a aventura começa e, de repente, arrasta consigo toda a plateia que fica a pairar no "nada" e em queda livre para as labaredas do Hades.


Escrito por três (quase) desconhecidos, o realizador Gabe Ibáñez, juntamente com Igor Legarreta e Javier Donate, "Automata" podia ter seguido o caminho mais fácil, mas apesar de todas as referências óbvias, decidiu que uma história deve contar-se ao seu ritmo próprio e que todos os pormenores contam. Por isso desenrola-se à sua velocidade muito particular, demorando o tempo que é necessário, sem pressas e sem acelerações. É como é e como tem de ser ou, como diria o ditador António Oliveira Salazar: "está bem assim e não podia ser de outra maneira".


Não restam dúvidas que existem aqui inúmeras incursões a outros elementos conhecidos: Isaac Asimov, Philip K. Dick e "Blade Runner", até mesmo Spielberg e o seu "AI", no entanto nada disso altera um milímetro da consistência e do brilhantismo de "Automata", basta que o espectador deixe o filme derreter-se devagar, se deixe arrastar para o abismo e, quando estiver mesmo à beira do precipício, decida saltar. É a queda no vazio da própria existência.

quarta-feira, abril 25, 2018

DIFERENÇAS DE OPINIÃO

CRÉDITOS COMPLETOS

A produção da Netflix, apesar do seu cariz de entretenimento puro, tem-nos brindado com algumas obras bem interessantes - e lembro-me apenas do surpreendente "iBoy" ou da série televisiva "Por 13 Razões". Além disso, este "Mute" vem das mãos do realizador Duncan Jones, que já tinha feito "Moon" ou "O Código Base", portanto todas as expectativas eram legitimas.


Deixem-me já avisar que, à saída do cinema, as opiniões eram contraditórias: entre os que gostaram muito e os que saíram indiferentes. Eu estou nos segundos. O filme tem ares de ficção cientifica, passado numa Berlim de 2050 entalada entre o Leste e o Oeste, guardada por militares americanos que desertam do exército. No entanto, na verdade, também pode ser o romance entre Leo (Alexander Skarsgard / Levi Eisenblätter) e Naadirah (Seyneb Saleh).


Esta dualidade acaba por fazer o filme saltar entre histórias (aparentemente) sem relação, quebrando ritmos, dispersando a atenção do espectador e desinteressando a plateia, obrigando a concentração saltar entre assuntos, muitas vezes com pontas soltas. A(s) história(s) acaba(m) por não levar a lado nenhum e mesmo que o filme tenha um final - no sentido tradicional do termo -, ele deixa um simples sabor a vazio.


Por um lado temos Leo, barman mudo num bar de streep-tease, apaixonado pela empregada Naadirah que desaparece misteriosamente, obrigando-o a iniciar uma busca desesperada, percorrendo os meandros mafiosos duma Berlim de becos escuros e perigosos; por outro lado, temos Cactus Bill (Paul Rudd), desertor do exercito americano, que procura abandonar a cidade com a filha, pelo que aguarda ansioso por documentos falsos, cujo fabrico está a cargo do chefe do submundo.


Se ambas as histórias parecem interessantes e dariam pano para mangas, assim misturadas durante quase duas horas acabam por criar uma salada de sabores antagónicos. Se todos os elementos em separado podem fazer sentido, misturados perdem as propriedades próprias e o resultado final é um novelo emaranhado. Se o resultado final de "Mute" fosse outro, seria o exemplo perfeito da máquina da Netflix a funcionar na sua plenitude, exactamente para aquilo que foi criada. Mas não, um grão de areia empenou a engrenagem.


Os muros (já que estamos em Berlim) de reviravoltas forçadas, golpes de rins inexplicáveis e assuntos paralelos sem interesse directo, criam uma barreira de desinteresse por cada um dos temas centrais. Apesar duma banda sonora exemplar (como é hábito na Netflix e que vai de J:Mors a Nick Kershaw ou de Mr. Fuzz a David Bowie), "Mute" é uma sinfonia desafinada, não propriamente mal tocada, mas confusa.


Como disse um amigo meu, "Mute" é muito "bah!", no que foi contrariado por outro amigo que o achou "realmente interessante". Aparentemente aleatório no seu emaranhado, o filme acaba por tocar diferentes sensibilidades. A mim, pessoalmente, não despertou nada de especial, para além da curiosidade de saber como tudo aquilo ia acabar. E mesmo isso, deixou-me num vazio sem sentido. Mas é só uma opinião!

segunda-feira, abril 09, 2018

MESTRIA NARRATIVA

CRÉDITOS COMPLETOS

Brilhante, concreto e exemplar. "The Post" até pode parecer mais um duma longa tradição cinematográfica, em que o tema é o jornalismo, os jornalistas e as notícias, só que desta vez está nas mão de três monstros sagrados de Hollywood: Steven Spielberg, Tom Hanks e Maryl Streep. Parecendo que não, isto faz toda a diferença no produto final e o filme sai devidamente valorizado.


Não é de todo descabida a comparação que se vive no momento actual, com as sucessivas tentativas de desacreditação da imprensa por parte de dirigentes políticos. O jornalismo e os jornalistas mexem multidões, formas opiniões, influenciam as massas e isso é um poder que faz tremar as esferas onde se movem os candidatos. "The Post", embora passado nos anos 70, tem tudo a ver com a nossa época, tem tudo a ver com todas as épocas.


Kay Graham (Maryl Streep) foi a primeira mulher proprietária de um jornal, neste caso o The Washington Post, que, de repente, se vê envolvida numa guerra editorial com o seu concorrente The New York Times, envolvendo documentos secretos sobre a guerra do Vietname. Mais uma vez, o que salta à vista logo de imediato, é a capacidade da actriz de recriar grandes mulheres - coisa que já sabíamos com a composição de Margaret Thatcher em "A Dama de Ferro", mas que aqui repete de forma absolutamente brilhante.


À superficie, "The Post" é um thriller político, baseado em factos verídicos, na sequência - ou melhor, na antecipação - da obra-prima de Alan J. Pakula, "Os Homens do Presidente". Mas na realidade, é sobre as notícias que o poder não quer que sejam publicadas, aquelas noticias que realmente importa para a opinião publica e que têm influencia quando se trata de colocar os votos na ranhura da urna.


Steven Spielberg não se faz rogado e vai buscar para argumentistas Liz Hannah e Josh Singer - que, em conjunto ou separado, têm nas mãos vários episódios da série "Fringe" ou outro filme sobre jornalismo de investigação: "O Caso Spotlight". Todo este conjunto de actores de eleição, um realizador sóbrio e um argumento de qualidade, transformam "The Post" num momento de cinema único e absolutamente excepcional.


Só para terminar, "The Post" é também um filme feminista, no sentido em que conta a história duma mulher que assume de forma decisiva o papel de um homem, na direcção e orientação de um negócio - sim, porque um jornal não deixa de ser um negócio. Numa época em que as mulheres eram vistas como donas de casa pela generalidade da sociedade, incluindo elas próprias, Kay Graham assume o papel de líder contra a desconfiança e o preconceito.


Maryl Streep, Tom Hanks e Steven Spielberg, só podia funcionar bem, nem que fosse a filmagem de uma ida ao supermercado. O nível técnico e a mestria narrativa do realizador, juntam-se aqui a desempenhos exemplares e esmagadores. Tal como os seus protagonistas, "The Post" é um filme corajoso e motivador.

domingo, abril 08, 2018

HONESTIDADE MULTI-CULTURAL

Expresso do Amanhã: CRÉDITOS COMPLETOS

"Snowpiercer" carrega na bagagem a novela de BD "Le Transperceneige" de Lob, Rochette e Legrand, o director sul-coreano Bong Joon-ho - conhecido por "The Host" -, referências explicitas a "Elyseum" e "District 9" e, finalmente, uma elenco multi cultural, que inclui o "Capitão América" Chris Evans, passa pela estrela asiática Song Kang-ho, a quem se juntam vários ingleses com Tilda Swinton em destaque.


O que esperar, então, de tamanho cocktail? É a pergunta que muitos farão neste ponto. E eu posso assegurar que "Snowpiercer" segura todas as pontas com brilhantismo, mesmo que, em determinadas alturas, os espectadores mais atentos tenham a natural reacção tipo "eu já vi isto!..." Bong Joon-ho dirige de forma segura um filme que mantém o ritmo e o interesse do principio ao fim, sem que para isso tenha realizado uma obra-prima para a posteridade.


Na raiz do argumento, está a eterna luta de classes e as desigualdades sociais. Mas partindo desse ponto mais que visto, o filme desenvolve-se num ambiente claustrofóbico e tenso, sempre com momentos de acção e tensão. É uma daquelas obras que mantém a plateia presa ao ecrã sem dificuldade, com várias interpretações de excelência e uma montagem que acaba por surpreender, já que vem orientada por um mestre em flops, Harvey Weinstein.


Depois duma tentativa falhada para inverter o aquecimento global, o planeta fica gelado e sem vida. Os poucos sobreviventes habitam um comboio sempre em movimento, que está dividido entre as carruagens da frente, onde vivem os mais ricos, e as carruagens de trás, onde vivem os mais pobres, alimentados a barras gelatinosas de proteína. E embora muitos possam torcer o nariz a esta descrição sumária, a verdade é que o filme vive de forma exemplar dum grotesco pós-apocalíptico, que faria inveja ao próprio Philip K. Dick.


Tilda Swinton dá lições de interpretação - representado o que poderia ser uma Margarete Thatcher de ficção cientifica -, seguida de todo o elenco em grande esplendor. Na sua raiz mais profunda, "Snowpiercer" é apenas um filme sobre a luta entre bons e maus - aqui representados por pobres e ricos -, mas na verdade é um belo entretenimento, que vale a pena ser visto de olhos bem abertos.


Se a forma como toda esta metáfora funciona não é original nem surpreendente, o filme vai buscar a sua força a um design apelativo, a um ritmo muito bem gerido  e a uma honestidade inquestionável - da parte de todos os intervenientes, desde o realizador aos actores e técnicos. Enquanto a Primavera não desponta e o frio e a chuva continuam a massacrar-nos, "Snowpiercer" é uma bela desculpa para enfiar as pantufas e ficar em casa em frente ao ecrã.

sábado, março 24, 2018

VEZES ZERO, IGUAL A ZERO

CRÉDITOIS COMPLETOS

Eu não desgosto de Nicolas Cage. um actor muito subvalorizado e com mau gosto para escolher projectos, mas que tem no currículo algumas obras brilhantes como "Rumble Fish" ou "Morrer em Las Vegas"; também não desgosto de Robin Tunney, a bela Teresa Lisbon de "O Mentalista", actriz profícua em series de TV. Quanto ao realizador Tim Hunter - homem especializado em televisão -, não deixa de ser sempre uma incógnita quando se trata de longas metragens, mas que já dirigiu o desconcertante e injustamente ignorado "River's Edge".


Dito isto, resta acrescentar que "Looking Glass" é como uma multiplicação por zero: dá zero. É um filme que não tem sentido, não tem ritmo, não tem direcção. E embora não carregue nos ombros más interpretações, os actores estão ali como se não estivessem. A história está mais que vista - lembram-se de "Os Outros" de Alejandro Amenábar? -, mas neste caso e a multiplicar a isso, não tem ponta por onde se lhe pegue, não tem interesse, não tem suspense, é um resultado absolutamente nulo.


O casal Ray (Nicolas Cage) e Maggie (Robin Tunney) adquirem um motel no deserto, aonde acabam envolvidos em misteriosos acontecimentos, remanescentes de antigas ocorrências no local. Nada de novo, o que não impediu Nicole Kidman de arrasar em "Os Outros" ou o casal Kate Backinsale e Luke Wilson de assustar plateias em "O Motel". O problema de "Looking Glass" não é sequer a repetição, mas a ausência total de qualquer coisa.


Este filme desperdiça o talento do elenco num argumento completamente vazio, preenchido com os piores clichés do género, que vai repetindo cena após cena. A determinado ponto, parece que toda a plateia suspira de desespero, gritando em silêncio "mais não, mais não!...", tal é a saturação de zeros seguidos de zeros ad infinitum.


"Looking Glass" vem classificado um thriller psico-sexual. É uma mentira porque não tem nada que se possa comparar seja ao que for, para poder ser rotulado seja do que for. Na verdade "Looking Glass" é um mero desperdício de tempo para o espectador, para dizer o mínimo, principalmente para aqueles que gostam de thrillers, sejam eles psico-sexuais ou não. Quando o filme acaba, a plateia sai do cinema como uma simples multiplicação por zero: com um resultado igual a zero.