sábado, fevereiro 20, 2016

SEXPLOITAITION EM FORNO DE LENHA



"24 Exposures" é a prova de que não se deve abordar um filme já carregado de preconceitos. O género "sexploitation" é um prato (quase) tipicamente italiano e, tal como uma boa pizza, deve ser cozinhado com o requinte dum bom forno de lenha, sob pena de saber a micro-ondas.


E um bom forno de lenha é precisamente o que tem o argumentista e realizador Joe Swanberg, que com pouco dinheiro, não fica nada a dever ao melhor Jesús Franco ou ao melhor Joe D'Amato, misturando de forma brilhante nudez e crime, sexo e sangue.



"24 Exposures" não tem dinheiro, mas tem tudo o que é preciso para pegar em mulheres nuas e cenas eróticas, regá-las com molho de tomate e criar um excelente entretenimento, um cocktail do melhor de Jean Rollin com o melhor Tinto Brass.


Como não tem preocupações de estilo, não pretende fazer nenhuma declaração de originalidade cinematográfica, Joe Swanberg deixa os atores em paz na sua evidente incompetência, nervosismo e falta de experiência.



É preciso tanta nudez feminina para fazer este filme, ao ponto de já lhe terem chamado "soft-core porn"? Talvez não... Mas numa segunda perspetiva, porque não? Se a história é passada no mundo das belas modelos fotográficas, o que é que há de mais erótico, que despir uma jovem apetecível, excitantemente vestida de lingerie vermelha - ou preta, ou branca...?



E depois da cena erótica, porque não retalhá-la em pedaços e deixá-la para o detetive deprimido - também ele com problemas eróticos em casa - vir a descobri-la e desembrulhar a meada do crime?
É por isso que o despretensioso "24 Exposures" vale a pena. Porque não tem intenções de provar nada, demonstrar nada, exercitar nenhuma mente iluminada. Sexo, nudez e sangue. É tudo o que é preciso.

domingo, fevereiro 07, 2016

MIGALHAS DE PERFEIÇÃO



 "Bridge of Spies" junta migalhas do que Hollywood tem de melhor: Steven Spielberg e Tom Hanks. Não é a primeira vez que o primeiro se mete no mundo da espionagem (lembram-se de "Munique"?); nem é a primeira vez que o segundo faz de negociador implacável (lembram-se de "Jogos de Poder"?). Não é a primeira vez que trabalham juntos (lembram-se de "Terminal"?) e, esperemos, não será a última.


Ao contrário de "Munique", em "Bridge of Spies" marca-se uma linha clara entre bons e maus e nunca são confundidos, nos métodos e nas intenções. Há os que lutam pela justiça e pela liberdade e há os outros, os que estão contra o mundo ocidental e representam todos os ideais a que temos de nos opor. Mas nem isto é novo em Steven Spielberg. As coisas devem ser claras e devemos sempre saber de que lado estamos.


Mas o advogado James B. Donovan (Tom Hanks) está longe de ser um Indiana Jones da guerra fria. Se as circunstâncias merecem métodos menos ortodoxos, pois que sejam usados! E o facto de o filme ser baseado numa história verídica, confere-lhe alguma credibilidade, mesmo nos momentos mais improváveis.


"Bridge of Spies" tem Spilberg ao nível do melhor "Cavalo de Guerra" e Hanks ao nível do melhor "Cast Away", por isso está tão perto da perfeição que até doí! O realizador faz o que sabe melhor: dramatizar, impor o ritmo; o actor faz o que sabe melhor: representar. O filme tem o peso e a medida perfeitas, onde cada um sabe a parte que lhe compete e ninguém interfere com o trabalho do outro.


Salvo algumas raras exceções, nem Spielberg nem Hanks são gente sem sal. "Bridge of Spies" é um filme bem temperado, com a dose certa de açúcar e pimenta. Nem enjoa de tanto doce, nem incomoda de tanto picante. A guerra fria já lá vai há décadas e os inimigos agora são outros. É maravilhoso recordar os tempos em que as coisas eram bem mais claras e as linhas estavam bem mais definidas.

sábado, fevereiro 06, 2016

DUMA PONTA À OUTRA



"Spotlight" pega-se numa ponta e desenrola-se todo até à outra ponta sem parar. Hoje em dia, isso já é muito para um filme. Os amantes da teoria da conspiração vão ficar algo desapontados com a falta de acção, mas os outros vão entusiasmar-se com a história - ela própria, sem subterfúgios - que se vai desenrolando à sua frente.


Claro que, muitas vezes, nos vem à memória outras referências como "Os Homens do Presidente", por exemplo. Mas "Spotlight" não merece. Lembramos-nos ainda de outros filmes. de ficção, como "Capricórnio Um" ou "Os 3 Dias do Condor", mas, mais uma vez, é uma injustiça.


"Spotlight" não procura criar emoções no espetador, limita-se a seguir um grupo de jornalistas que vai desenrolado uma história complicada. Nada na realização nos faz tomar partido, e o resto são questões morais, com os habituais nós jurídicos.


O filme começa e acaba sem que nos tenhamos apercebido que passaram duas horas, tal é a competência de todos os envolvidos, actores, realizadores, editores. Este é um grande trabalho de equipa, como devem ser todos os filmes, em que cada um sabe a sua parte e desempenha-a com perfeição.

quinta-feira, fevereiro 04, 2016

VER COM OLHOS DE VER


 

A maior dificuldade em fazer filmes sobre adolescentes está no facto de, primeiro, se cair no moralismo idiota, tratando os adolescentes como criminosos incontroláveis ou vitimas indefesas; segundo, fugir para o puro drama sem sentido, tratando os adolescentes como seres ao sabor de emoções que os adultos não compreendem.


"Suicide Room" tem a vantagem de ver o mundo pelos olhos dos adolescentes, tal como os adolescentes - pelo menos alguns - o vêm, sem tentar que o espetador se aproxime ou se afaste dos personagens. Conta uma história dramática, tal como as histórias dramáticas devem ser contadas: com drama e emoção.


A realização é pura e dura tal como a vida dum adolescente. Não faz concessões ao politicamente correto, mas também não tenta o seu contrário. Vai seguindo a acção conforme ela se desenrola, e deixa que o espetador siga as suas próprias emoções.


Às vezes o excesso de filmes americanos ou com apetência americana, mesmo feitos noutros países, faz-nos esquecer da simples filmografia europeia, que tem uma vida própria e uma forma própria de ser (europeia). A Polónia - os países de leste em geral - tem uma identidade muito pessoal de fazer cinema. Suicide Room é um excelente exemplo, nada ficando a dever a Andrzej Wajda ou Krzysztof Kieslowki.


segunda-feira, fevereiro 01, 2016

TANGO(S) ARGENTINO(S)




Há filmes que nos caiem no colo por acaso e depois nunca mais saiem. Foi o caso de "El Secreto de Sus Ojos", que fez parte da sessão da noite de sábado, na televisão.


O filme nunca precisa de ganhar muita velocidade para manter o espetador interessado. Vai com calma, colecionando dramas. tanto podendo ser um romance tradicional como um policial simples. Há crime e mistério, há tensão jurídica, mas há também paixão e amizade. Tudo na medida certa.


É verdade que sendo um filme de baixo orçamento - pelo menos para os padrões hollywoodescos - não tem a agilidade contabilística das grandes produções americanas. Mas isso nunca lhe retira interesse e, num certo ponto de vista, dá-lhe consistência emocional, já que não desperdiça recursos, concentrando toda a energia no que é importante.


Às vezes pode parecer que não tem o golpe de rins de outros filmes para surpreender e fazer reviravoltas de argumento, mas na verdade tem a inocência, o que acaba por lhe conferir toda a credibilidade.


Não é só um grande filme, bem realizado e bem interpretado. É um tango argentino ao nível do melhor Astor Piazzolla, que nos faz dançar com o par mais bonito da sala.

domingo, janeiro 24, 2016

POSSIBILIDADES DE IR, MAS FICAR.



Vamos já esclarecer uma coisa: ficar duas horas a olhar para a Jennifer Lawrece, nunca fez mal a ninguém. E, na verdade, ela é a dona do ecrã em "Joy". Se é suficiente para ganhar a estatueta de 2015, isso já é outra história.


Vamos então ao filme: com um elenco como este (Robert De Niro, Isabella Rossellini, Bradley Cooper, Diane Ladd...) as expectativas são sempre muito altas. O que acontece em Joy, é que elas nunca se concretizam.
Imagino que deve ser difícil fazer um filme sobre a invenção da esfregona, não é propriamente - pelo menos à partida - o mais interessante dos temas. Mas a verdade é que o filme também nunca faz muito para sair do limiar das possibilidades.


O filme tem a possibilidade de ser uma excelente comédia, mas nunca consegue mais que uma gargalhada tímida, pouco convincente; o filme tem a possibilidade de ser um excelente drama familiar, mas pouco mais consegue que uma lágrimasinha perdida; o filme tem a possibilidade de ser um excelente panfleto sobre a luta pelo sucesso, mas vai pouco mais longe que um anuncio de televisão.


 Joy é apenas metade do que podia ser, em todas as perspetivas que se queira olhar para ele. David O. Russel não deixa de lhe conferir alguma competência, mas é uma mera possibilidade. No fim fica sempre um certo sabor amargo, daquilo que o filme tinha possibilidade de atingir.

segunda-feira, janeiro 11, 2016

12 RAZÕES PARA CONHECER BOWIE


Não vão faltar rapidamente coletâneas, reedições e homenagens. A minha pergunta aqui é simples: se os meus netos me perguntarem quem foi David Bowie, o que é que eu posso responder?

Space Odity (Space Odity, 1969)


Life on Mars (Hunky Dory, 1971)


Rock'n'Roll Suicide (The Rise and Fall Of Ziggy Stardust and The Spiders from Mars, 1972)


Rebel Rebel (Diamond Dogs, 1974)


Young Americans (Young Americans, 1975)



Heroes (Heroes, 1978)


Scary Monsters (And Super Creeps) (Scary Monsters... And Super Creeps, 1980)



Let's Dance (Let's Dance, 1983)



Blue Jean (Tonight, 1984)


I'm Afraid of Americans ft. Nine Inch Nails (Earthling, 1997)



Thursday's Child (Hours, 1999)



Lazarus (Blackstar, 2016)



sábado, janeiro 09, 2016

E DEPOIS ENTRANHA-SE...



Nas de qualquer outro que não fossem Yorgos Lanthimos e Efthymis Filippou, "The Lobster" certamente descambaria em algo incompreensível e intragável.


Primeiro estranha-se: é ficção cientifica? É político?... Depois a pouco e pouco, entranha-se e cola-se à pele. É a altura em que já não conseguimos tirar os olhos do ecrã.


É uma comédia!... Ou parece ser. Só que este humor "tipo inglês", que nunca nos deixa rir às gargalhadas, não é nem óbvio nem fácil.


É certamente um romance. Mas, em certas alturas, até a memória de "Stalker" de Andrei Tarkovsky me veio à cabeça.


É daqueles filmes que têm de ser visto, nem que seja para o recusar completamente. Vai demorar tempo a entrar, mas depois vai ser difícil sair!

sexta-feira, janeiro 01, 2016

HITCHCOCK JANTA COM DOSTOIÉVSKI




É gratificante quando podemos ter um romance que não seja uma colagem de clichés. É verdade que Woody Allen não é consensual e, principalmente, é uma montanha russa, capaz do melhor e do pior nun curto espaço de tempo. Aquelas viagens pelas capitais europeias, deixaram "Match Point" e pouco mais.


 "Irrational Man" tem Kant, Kierkgaard, Heidegeer e, de repente, tem Hitchcock e Patricia Highsmith no "Desconhecido do Norte Expesso". E tem crime e tem castigo. Um cocktail de moral, imperativo categórico e Dostoiévski.


É um filme para quem gosta de ler e de ouvir. Woody Allen não abdica dos diálogos longos e dos planos fixos em travelings lentos, enquanto os personagens debitam ideias cruzadas, que vão discutindo ao longo de caminhadas (aparentemente) infindáveis, embora aqui não chegue aos extremos de "Comédia Sexual Numa Noite de Verão"


E depois tem o regresso da adolescente apetecível - um fetiche que só Woody Allen consegue manter sem parecer ridículo -, só que Jill (Emma Stone) não anda perdida em "Manhattan", nem tem a candura e a inocência virginal de Mariel Hemingway.


Há uma coisa que posso garantir: não é um filme que irá rebentar com as bilheteiras, nem fazer o grupo sair do cinema com as ideias consensuais. Mas há outra coisa: não há nada melhor que possam fazer hoje, do que enfiarem-se num cinema a ver "Irrational Man", para curar a ressaca da noite de passagem de ano.

quinta-feira, dezembro 31, 2015

E MARTE É MESMO AQUI



Há um conjunto de filmes que todos os cinefilos devem ver, quando o tema é ficção cientifica. Consigo lembrar-me, de repente, de quatro - "2001: Uma Odisseia no Espaço", "Alien, o Oitavo Passageiro", "Blade Runner" e a trilogia "Matrix" -, mas vou ser acusado de me esquecer de algum.



"The Martian" podia ter seguido vários caminhos, e escolheu não seguir nenhum. Ridley Scott é demasiado competente para deixar o filme perder-se - basta reparar-mos que, dos quatro filmes lá acima, dois são dele! -, mas parece que quem se prende nas malhas da indecisão, é ele próprio.


Podia explorar o tema da solidão, o drama de Mark Watney (Matt Damon) sozinho durante dois anos em Marte; podia explorar o drama do salvamento, quer dos cientistas na NASA na Terra, quer da equipa de astronautas que continuou a missão sem ele.


Afinal, nem uma coisa nem outra. The Martian é muito mais um filme sobre Física que sobre ficção cientifica, mas numa perspectiva infantil, como aquelas festas para crianças com vulcõesinhos e bombinhas. Nada é levado muito a sério e o filme não passa duma aventurasinha divertida, mas que parece nunca ser levado muito a sério.



Acredito que ninguém se vai aborrecer a ver o filme. Tem ritmo e está filmado com competência, mas depois, puf! Não sobra grande coisa. O que é pena: a história tinha grandes possibilidades!

segunda-feira, novembro 23, 2015

O KANT DA NATUREZA



Um filósofo brasileiro diz que Kant é o Evereste da Filosofia e que a dificuldade de "chegar lá a cima" é proporcional ao prazer da descoberta. O que "Everest" nos revela é que chegar ao topo é apenas metade da história.


O filme parece começar onde a escalada acaba e com o elenco disponível podia ser inesquecível. Mas depois algo falha na história, Nem se assume como um drama familiar, nem como um filme-catástrofe. Fica-se por metade de ambos.


Subir ao Evereste é de extrema dificuldade, mas descer para contar parece ser pior. Essa é a história central no filme e, nesse aspeto, o filme até é original: dá a impressão de começar onde os outros acabam.


Não deixam de ser duas horas bem passadas numa aventura. Mas não há empatia com os personagens, o que anula alguma da emoção possível e isto considerando que a história está repleta de atores que já deram outras provas de profissionalismo e competência.


O mais interessante do filme é que, tal como em Kant, não basta ler para perceber, é preciso compreender; no Evereste não basta subir para conquistar a montanha, é preciso descer.