Juntar a ficção cientifica com o policial é o melhor de dois mundos. O problema de "Synchronicity" é que acaba por não ser nem uma coisa nem outra.
A ver se nos entendemos: o filme é ligeirinho, rola sem aborrecer e é um bom entretimento para uma tarde domingo. Mas quando acabar, sai tudo do cinema para a cervejaria beber umas imperiais e não sobra nada. Fica uma espécie de vazio, tipico do cinema que não aquece nem arrefece.
Os argumentistas Jacob Gentry (também realizador) e Alex Orr tentam bater à porta da ficção cientifica, tentam bater à porta do policial, tentam bater à porta da teoria da conspiração. Tentam entrar em tantas casas, que depois perdem-se e não saiem do corredor sem escolher nenhuma.
Nem sequer falta a meteriosa mulher fatal, só que Brianne Davis não é Lauren Bacall nem Chad McKnight é Humphrey Bogart. E muito menos "Synchronicity" é "The Big Sleep" ou "Blade Runner" (apesar da tentativa, através das sombras e de toda a atmosfera cinzenta).
Agora que o calor aperta, talvez a praia seja melhor opção. A não ser que sejam cinéfilos absolutamente viciados e não consigam deixar de lado filme nenhum. Um bom mergulho é tempo mais bem passado, mas cada um sabe de si!
O que primeiro chama a atenção em "The Revenant", é a extrema competência de Alejandro Iñárritu atrás das cãmaras - nada que surpreenda os mais atentos, depois de "Amor Cão", "21 Gramas" ou "Birdman".
"The Revenant" (O Renascido) tem o seu próprio ritmo e toda a acção segue esse passo a passo que vai marcando a aventura, sempre sem precipitação e sem sobressaltos. Tudo se desenrola como tem de ser, mesmo que para isso seja preciso abrandar a euforia das grandes correrias. Cada coisa no seu lugar; cada coisa no momento que tem de ser.
Às vezes parece que algum fogo de artificio hollywoodesco seria bem vindo, mas no fim percebemos que nada está a mais e nada está a menos. A ausência de espetacularidade fútil faz com as coisas sejam digeridas com calma e saboreadas com parcimónia.
Fica a ganhar Leonardo DiCaprio, Tom Hardy e (principalmente) Will Poulter, que poderia ter passado despercebido, mas ganha uma dimensão essencial.
A dinâmica metódica imposta por Iñárritu - em minha opinião o grande herói do filme - faz com que os atores se sintam confortáveis no que estão a fazer, desenvolvendo personagens consistentes. O filme poderia resvalar para uma pasta intragável, se a realização preferisse acelerar para satisfazer um público menos paciente.
"The Revenant" é um grande filme. Talvez venha a ser engolido pelas luzes efémeras da noite dos Óscars, mas merece muito mais. Também é verdade que não deixa de ser um produto típico de Hollywood, mas vem embrulhado num pacote muito pessoal, indo beber influências a outro cinema mais preocupado com o recheio do bombom que com o papel brilhante que o embrulha.
Até a música de Ryuichi Sakamoto - que, por vezes, pode parecer intrusiva -, feita de elementos audazes de cordas e eletrónica, parece diluir-se nos passos (aparentemente) lentos mas seguros do desenrolar do filme. Afinal, tudo se combina para ter um filme de qualidade superior. É por momentos como "The Revenant", que gostamos de ir ao cinema!
Com "The Hunger Games: Mockingjay, part 2", chega ao fim a saga de Jennifer Lawrence no papel da bela Katniss Everdeen, rapariga que vai de inocente defensora da irmã, a líder duma revolução planetária. Por amor de dois homens, entrega-se à mais nobre das causas humanitárias: libertar o mundo dos ditadores, aqui personificados por um arrogante Donald Sutherland e por uma mentirosa Julianne Moore.
Deixem-me já esclarecer que nunca li a obra original, por isso não faço a mais pequena ideia de como começa, se desenvolve e termina a trilogia literária de Suzanne Collins. Isso pode deixar-me mais liberdade para apreciar os filmes tal como são, sem outro sentido critico que não seja cinéfilo.
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E uma coisa que posso desde já adiantar, agora que a saga chegou ao fim, é que, ao contrário de outras sequelas cinematográficas, o realizador Francis Lawrence conseguir sempre subir a fasquia de episódio para episódio, tornando o conjunto das histórias apelativo no seu conjunto, sem descurar o sentido individual de cada parte.
Katniss Everdeen (Jeniffer Lawrence) é a figura da história e é a figura central de cada uma das quatro partes. Mas a verdade é que o filme gira à volta de uma serie de outras personagens interessantes, que não ofuscam a heroína principal, mas desempenham parte fundamental no seu desempenho.
Tudo acaba bem como convém. Os bons ganham e os maus perdem; o mundo encontra a sua harmonia, ganha o amor e o altruísmo. Tudo isto, não sem antes haver sofrimento e perca, como deve ser para valorizar a glória de qualquer herói. Pessoalmente, sempre achei o Gale Hawthorne (Liam Hemsworth) um homem bem mais interessante que Peeta Mellark (Josh Hutcherson), mas isso sou eu, que de homens não percebo nada.
Confesso que estive muito tempo sem acordar para este quarto episódio "Mad Max: The Fury Road". Andou por ali na prateleira, aos trambolhões de um lado para outro, preterido sempre por algum outro título. Confesso também que o súbito interesse da Academia, atribuindo-lhe 6 Óscars, um deles referente à montagem, influenciou-me a pegar nele.
É óbvio que o vingador Mel Gibson já não tem idade para andar metido nestas aventuras pós-apocalípticas, mas temos de reconhecer que Tom Hardy desempenha esse papel na perfeição. Mas também temos de reconhecer, que esta história não acrescenta nada às anteriores, como, aliás, já acontecia ao terceiro episódio da trilogia inicial, que serviu apenas para contabilizar o sucesso de Tina Turner na época.
Este "Fury Road" é exatamente aquilo que se espera de um Mad Max do século XXI: speed até mais não, sem um minuto de sossego, explosões, tiros, velocidade. Pouca conversa e tiro neles! Mas, sejamos claros, isso é precisamente o que Mad Max sempre foi, sem tirar nem pôr!
O que este filme tem é uma cuidadosa produção e um fantástico rigor na elaboração das sequências mais difíceis. E a verdade é que tem muitas, muitas mesmo, de tal maneira que quando acaba mal nos lembramos das cenas em que não houve tiros, velocidade e explosões. As duas horas são passadas no limite, com o conta-rotações sempre no red line ou muito perto disso.
Sejamos claros: o argumentista teve muito pouco trabalho a escrever diálogos, mas a equipe de efeitos especiais não deve ter tido um minuto de descanso. É um filme para se ver "na desportiva" e, nesse contexto, não me lembro de melhor filme em 2015.
Colorido, agitado, sem momentos mortos, "Mad Max: The Fury Road" vale a pena, por todas as razões e mais algumas que se queiram inventar. Não vai haver uma tarde ou um inicio de noite mais bem passado, que a ver este filme.
Alfred Hitchcock filmou mais de 50 longas-metragens, o que faz dele um dos mais produtivos realizadores de cinema de Hollywood - epíteto injusto para as suas origens inglesas. Nestas condições, quando queremos fazer uma pequena lista de filmes (chamados) obrigatórios, será quase impossível obter consenso.
Esta seleção de filmes não tem nada a ver com a opinião generalizada de técnicos ou críticos. Baseia-se exclusividade no meu gosto pessoal e nela vão constar enormes êxitos de bilheteira, lado a lado com enormes falhanços comerciais.
Chamada Para a Morte (1954)
Na estreia, "Dial M for Murder" foi apresentado em 3D (?). Hitchcock tentava aderir às novas tecnologias e embrenhava-se a brincar com a profundidade.
É um dos filmes em que a palavra "suspense" é levada às últimas consequências.
Janela Indiscreta (1954)
Adoro espreitar - e, vendo bem, quem não adora? Se se for guiado por Hitchcock, melhor! Talvez seja por isso que "Rear Window" teve tanto sucesso.
E depois, tem a melhor Grace Kelly e o melhor James Stewart, dirigidos pelo que Hitchcock sabe fazer de melhor: brincar com o espetador.
O Terceiro Tiro (1955)
"The Trouble With Harry" é o meu Hitchcock favorito, por muito que me acenem com outros argumentos.
Aqui Hitchcock leva ao extremo o seu humor corrosivo - daquele que não desperta gargalhadas, mas faz sorrir com gosto -, a sua noção de suspense e de imprevisibilidade. Pode não ser o Hitchcock mais famoso, mas tem o Hitchcock todo!
Psico (1960)
"Psycho" é o Hitchcock mais citado, aquele que faz as pessoas correrem para as salas de cinema.
Foi talvez o seu maior êxito comercial - ou próximo disso - e ajuda os mais novos a perceber porque é que todos os filmes de terror, teem uma uma miúda retalhada num chuveiro.
Os Pássaros (1963)
"The Birds" é uma surpresa para as gerações mais novas - às vezes no bom, outras no mau sentido.
Sem a Electric Light and Sound ali ao lado, os meios técnicos para a criação de efeitos especiais era muito limitada e tinham que ser produzidos "na hora" e de forma artesanal. Os mais preconceituosos acham-no "primário", os mais inteligentes surpreendem-se e divertem-se com a infantilidade.
Perigo na Noite (1973)
"Frenzy" é o regresso a casa do americano. Hitchcock volta a Inglaterra para aterrorizar Londres. O longo, lento e horrível estrangulamento de Brenda, ficou para a história do cinema.
É o único filme do realizador que tem nudez explicita. Corpos de mulheres nuas aparecem por todos os cantos da cidade, a boiar no Tamisa e perdidos em pensões de má fama.
Tudo o que foi dito sobre o filme argentino, tem que ser retirado nesta versão americana, sem chama, sem alma, apesar de ter custado muito mais dinheiro.
Seria de esperar mais, muito mais, de um elenco que conta com Chiwetel Ejiofor, Julia Roberts ou Nicole Kidman, mas tudo não passa de uma má cópia do original.
A paixão não tem química, os atores arrastam-se durante (o que parece ser) um tempo infindável, nada funciona e Billy Ray não sabe o que há-de fazer com as câmaras, para além de andar atrás de vedetas completamente desinteressadas do que estão a fazer.
Este filme é uma completa perca de tempo para o espetador e um enorme desperdício dinheiro para a industria americana - no mesmo sentido em que o original argentino, faz muito mais com muito menos.
"24 Exposures" é a prova de que não se deve abordar um filme já carregado de preconceitos. O género "sexploitation" é um prato (quase) tipicamente italiano e, tal como uma boa pizza, deve ser cozinhado com o requinte dum bom forno de lenha, sob pena de saber a micro-ondas.
E um bom forno de lenha é precisamente o que tem o argumentista e realizador Joe Swanberg, que com pouco dinheiro, não fica nada a dever ao melhor Jesús Franco ou ao melhor Joe D'Amato, misturando de forma brilhante nudez e crime, sexo e sangue.
"24 Exposures" não tem dinheiro, mas tem tudo o que é preciso para pegar em mulheres nuas e cenas eróticas, regá-las com molho de tomate e criar um excelente entretenimento, um cocktail do melhor de Jean Rollin com o melhor Tinto Brass.
Como não tem preocupações de estilo, não pretende fazer nenhuma declaração de originalidade cinematográfica, Joe Swanberg deixa os atores em paz na sua evidente incompetência, nervosismo e falta de experiência.
É preciso tanta nudez feminina para fazer este filme, ao ponto de já lhe terem chamado "soft-core porn"? Talvez não... Mas numa segunda perspetiva, porque não? Se a história é passada no mundo das belas modelos fotográficas, o que é que há de mais erótico, que despir uma jovem apetecível, excitantemente vestida de lingerie vermelha - ou preta, ou branca...?
E depois da cena erótica, porque não retalhá-la em pedaços e deixá-la para o detetive deprimido - também ele com problemas eróticos em casa - vir a descobri-la e desembrulhar a meada do crime?
É por isso que o despretensioso "24 Exposures" vale a pena. Porque não tem intenções de provar nada, demonstrar nada, exercitar nenhuma mente iluminada. Sexo, nudez e sangue. É tudo o que é preciso.
"Bridge of Spies" junta migalhas do que Hollywood tem de melhor: Steven Spielberg e Tom Hanks. Não é a primeira vez que o primeiro se mete no mundo da espionagem (lembram-se de "Munique"?); nem é a primeira vez que o segundo faz de negociador implacável (lembram-se de "Jogos de Poder"?). Não é a primeira vez que trabalham juntos (lembram-se de "Terminal"?) e, esperemos, não será a última.
Ao contrário de "Munique", em "Bridge of Spies" marca-se uma linha clara entre bons e maus e nunca são confundidos, nos métodos e nas intenções. Há os que lutam pela justiça e pela liberdade e há os outros, os que estão contra o mundo ocidental e representam todos os ideais a que temos de nos opor. Mas nem isto é novo em Steven Spielberg. As coisas devem ser claras e devemos sempre saber de que lado estamos.
Mas o advogado James B. Donovan (Tom Hanks) está longe de ser um Indiana Jones da guerra fria. Se as circunstâncias merecem métodos menos ortodoxos, pois que sejam usados! E o facto de o filme ser baseado numa história verídica, confere-lhe alguma credibilidade, mesmo nos momentos mais improváveis.
"Bridge of Spies" tem Spilberg ao nível do melhor "Cavalo de Guerra" e Hanks ao nível do melhor "Cast Away", por isso está tão perto da perfeição que até doí! O realizador faz o que sabe melhor: dramatizar, impor o ritmo; o actor faz o que sabe melhor: representar. O filme tem o peso e a medida perfeitas, onde cada um sabe a parte que lhe compete e ninguém interfere com o trabalho do outro.
Salvo algumas raras exceções, nem Spielberg nem Hanks são gente sem sal. "Bridge of Spies" é um filme bem temperado, com a dose certa de açúcar e pimenta. Nem enjoa de tanto doce, nem incomoda de tanto picante. A guerra fria já lá vai há décadas e os inimigos agora são outros. É maravilhoso recordar os tempos em que as coisas eram bem mais claras e as linhas estavam bem mais definidas.