quarta-feira, junho 15, 2016

ALMAS GÉMEAS



Eu perco-me por um bom thriller; e quando um bom thriller encontra um realizador como Mennan Yapo, estão é a felicidade total; e quando um bom thriller, bem realizado, tem atores que sabem interpretar o suspense da história, então é o Éden, antes do pecado original.

"Premonition" tem tudo isso, é como a alma gémea dos doidos por thrillers e suspense, género de cinema que é alimentado pela surpresa e pelo imprevisto, e para isso é preciso enganar o público. O espetador acredita no que não vê, mais do que no que vê, o que o faz supor o que não está lá. É aldrabado pelo que imagina, mais do que lhe é dado.

Mas como ninguém gosta de ser aldrabado, é preciso muita mestria na manipulação das imagens e da informação, para que o espetador consiga ter a sua imaginação enjaulada e a sua atenção devidamente direcionada. Os atores têm que desempenhar o seu papel de ilusionistas e a realização tem de guardar a informação de tal forma, que não destrua a história.


Há quem prefira ver à lupa algumas inconsistências do guião e, com isso, perder algum do divertimento da surpresa, que vem com a inconsistência seguinte. Brincar com a roda do tempo nem sempre necessita de alicerces sólidos. O próprio tempo é volátil e surpreende-nos a cada momento. Os pormenores podiam ter sido trabalhados à exaustão paranóica, mas isso talvez retirasse alguma fluidez ao ritmo e um filme é um filme, não um exercício de dedução lógica. Andar a saltar de dia para dia, não só fora da sequência tradicional mas com acontecimentos cruzados, é coisa para dar a volta à cabeça de qualquer um.


 Também é verdade que "Premonition" vem embrulhado num elenco de luxo, mas já aqui escrevi sobre embrulhos dourados, que depois não tinham nada lá dentro. Se os nomes do casting ajudam a gostar do filme, é precisamente porque se esforçam e fazem o seu papel.



sábado, junho 11, 2016

FANÁTICO POR QUÍMICA


Eu sou fanático por um bom romance, mesmo que já tenha 10 anos de idade, e é precisamente isso que "The Lake House" é: um daqueles raros momentos de cinema, que, quando termina, sabemos que  certamente merecerá ser revisto uma segunda vez.


"The Lake House" é um filme sobre o tempo e nunca renuncia ao mistério da passagem dos dias. Vai dando pistas ao longo do percurso, no momento certo, fazendo com que o próprio espetador seja tão surpreendido como os próprios personagens. Nada acontece por acaso e tudo tem o seu instante de acontecer, quer para nós, que estamos de fora a ver, quer para os personagens Alex Wyler (Keanu Reevs) e Kate Forster (Sandra Bullock).


Se é verdade que, em contracena direta, Reeves e Bullock passam pouco mais de 20 ou 30 minutos juntos, também é verdade que, mesmo separados no ecrã (e no tempo), os atores têm a química que faz um romance valer a pena. E, como todos sabemos, sem química um romance é como um bico de Bunsen sem chama: a experiência não dá resultado!


Temos muitos exemplos dessa relação especial, tão necessária para que um drama tenha intensidade - lembram-se de "Ghost"? Ou, claro, de "Casablanca"? Com o habitual risco de me esquecer de algum!... Em "The Lake House" tudo é perfeito na relação entre Alex e Kate e o realizador Alejandro Agresti não se faz rogado a explorar essa faísca que passa entre os personagens - mesmo quando é o caso de nem sequer se cruzarem diretamente na cena.


Para além do romance e da brincadeira com o tempo, o filme é também um belo drama familiar, que não afetando diretamente a relação do romance, serve para colocar os personagens  no lugar próprio. Dá-lhes consistência e personalidade. Este é um daqueles momentos de cinema em que nada parece estar a mais e cada coisa faz a falta necessária para aquilo que tem de lá estar.


Se nenhum arquiteto tivesse construído aquela casa, naquele lago, então os deuses estariam todos enganados, o que não é possível, como sabemos. Aquela casa teria de ser edificada obrigatoriamente - nem que fosse, só para fazer este filme!

sexta-feira, junho 10, 2016

DOENÇA E CURA

 


"Wildlike" é um drama intenso e doloroso. É sobre o silêncio da dor mas, ao mesmo tempo, sobre o otimismo da cura. A história dá-nos tudo o que é preciso em 20 minutos e depois entra em velocidade de cruzeiro, parecendo quase não sair do mesmo lugar.


O abuso das mulheres nem sempre é notícia de primeira página, anunciada por megafones. Muitas vezes é oculta e privada e o sofrimento é vivido no mais profundo dos isolamentos. A tendência, depois, é contá-la em tom paternalista ou lamechas e é aí que o realizador consegue fazer um filme que foge aos clichés habituais.

É por isso que "Wildlike" não é um filme sobre a vitimização das mulheres, mas antes um filme sobre resistência e esperança e como o mais pequeno dos gestos, pode fazer a maior das diferenças. Várias referências me vieram à memória, entre elas "Uma História Simples" de David Lynch, porque "Wildlike" é também uma história de redenção, tanto quanto de busca.


Gostei muito deste filme, gostei muito da forma como Frank Hall Green - mais conhecido como produtor do que como realizador - aborda o tema com seriedade e sem preconceitos; gostei muito de como liberta Mackenzie (Ella Purnell) do estigma da vitima inocente e gostei muito de como usa a paisagem e o ambiente, de forma libertadora e pacificadora.



quinta-feira, junho 09, 2016

BENDITOS OS POBRES DE ESPIRITO


O verdadeiro Eddie Edwards foi um perdedor (desportivamente falando) o que é completamente diferente de ser um falhado. Participou pela Inglaterra nos Jogos Olímpicos de Inverno de 1988, e ficou em último lugar, quer na rampa de 70 metros, com 20 metros a menos que o penúltimo, quer na rampa dos 90 metros, a 30 metros do primeiro. No entanto... Foi recordista inglês... Porque não havia saltadores de ski em Inglaterra...


 Pergunta: porquê fazer um filme sobre Eddie Edwards? Afinal, "Eddie The Eagle" é sobre quê exatamente? Sobre a habitual sede de vitória, que leva um perdedor nato a um determinado momento de glória? Não. Sobre a vontade de vencer? Também não, que o nosso herói sabe, à partida, que não pode ir longe. Então, sobre que é o filme, no seu sentido mais lato?

A resposta é dada no fim, nas palavras do próprio Pierre Coubertin - considerado o "pai" dos jogos olímpicos da era moderna: "O importante na vida não é a vitória mas a luta por ela; o essencial não é a conquista, mas ter realmente tentado". Ou, dito por outras palavras, "ganhar ou perder, tudo é desporto", o que mete qualquer (verdadeiro) atleta de alta competição de cabelos em pé!


 Já várias vezes aqui elogiei a filmografia inglesa, pela sua enorme excelência de encenação, quer em tragédias quer em comédias, fazendo uso duma dramatização e dum ritmo próximos da perfeição. Só que o cinema inglês - como o europeu em geral - não usa a lágrima fácil nem a gargalhada sonora. Este é um excelente motivo para gostar de "Eddie The Eagle". A inteligência para criar um drama que é, em certo sentido, uma comédia de vida.


Eddie, o verdadeiro, saiu de Calgary, no Canadá, sem medalhas, mas saiu também em glória. Recordista inglês do salto de ski e admirado pelo público que, acima de tudo, valoriza o "tentar realmente". "Eddie The Eagle" é um filme de que se gosta sem dificuldade e tem muitos motivos para que isso aconteça: uma banda sonora inteligente, colocada no momento certo e fazendo uso de exitos conhecidos e fáceis de agaradar; e alguns planos deslumbrantes, que ficam a ganhar com o ecrã grande.


O filme é como o próprio Eddie Edwards: despretensioso mas convicto; humilde mas decidido. Tudo características que ficam bem num cinema que se quer mais virado para o espetador que para a bilheteira. E o público sabe reconhecer o despretensiosismo e a humildade, e valoriza a convicção e a honestidade Vai ser o "filme das nossas vidas"? Não, certamente. Mas vai ser um filme que vale a pena ser visto.

terça-feira, junho 07, 2016

TENTAR IR A ALGUM LADO


Decidi ver "Get a Job" por causa da Anna Kendrick, uma admiração antiga do tempo da saga "Twilight". Quando estamos perante as múltiplas escolhas à porta do cinema, há sempre uma razão para escolher um filme e não outro - o realizador, a banda sonora, os Óscars que ganhou (ou não). A minha foi a Anna e é uma razão tão boa como outra qualquer (ou, visto por outro prisma, é uma razão melhor que qualquer outra!)


O problema de "Get a Jpb" é que não vai a lado nenhum, pretendendo ser uma comédia ou um drama ou um romance ou uma crónica sobre a crise atual. O cruzamento dos personagens é inócuo, não existe química entre Jillian (Anna Kendrick) e Will (Miles Teller), as histórias parecem soltas e sem uma ponta que as una do ponto de vista dramático, embora os argumentistas Kyle Pennekamp e Scott Turpel tentem a todo o custo dar alguma sequência interessante aos vários dramas que se vão desenrolando.


Uma comédia deve fazer rir ou, pelo menos, deve ser divertida - Blake Edwards e Peter Sellers faziam isso na perfeição - e um drama deve ter uma sequência de tensão que interesse ao espetador - vale a pena falar do recente "The Revenante"? E é aí que "Get a Job" falha completamente.


Quando quer fazer rir, não consegue; e quando quer ser algo dramático, o riso - ou sorriso - que se perdeu na cena anterior, parece ficar engasgado na sequência dramática seguinte. Não basta colocar uma série de pós-universitários a fumar drogas, para fazer um retrato da juventude e das dificuldades da vida atual. É preciso mais, senão muito mais, pelo menos algo mais.


É verdade que é um filme de baixo orçamento - ou, pelo menos, parece ser - e podemos considerar alguma condescendência, mas depois tem um elenco com talento suficiente para fazer melhor: Bryan Cranston, Maria Gay Harden, Jorge Garcia... Todos parecem andar ali à deriva, algo perdidos e à procura de alguma orientação, tentando saber exatamente para onde ir. Ninguém lhes dá uma resposta e acabam por não ir a lado nenhum!

segunda-feira, junho 06, 2016

COLAGEM POP-ROCK


"Urgh! A Music War" não é um filme e muito menos pode ser considerado um documentário, embora seja um "documento", na medida em que revela de forma crua e dura uma geração pós-punk, entre o hard-rock, a eletrónica e a new-wave.

Cramps
O produtor Michael White e o realizador Derek Burbidge andaram durante dois anos, entre 1980 e 1981, pela Europa e Estados Unidos a registar concertos de bandas (mais ou menos famosas à época), acabando por fazer uma colagem de momentos dessas performances, juntando-as aleatoriamente.

The Police - Driven To Tears

Algumas das bandas registadas resistiram menos ao tempo que outras. O filme começa com uma das mais fantásticas interpretações de "Driven To Tears" feitas pelos The Police e pelo meio tem a melhor Joan Jett & The Blackhearts, numa demolidora versão de "Bad Reputation", ou o melhor de Echo & The Bunnymen, com um "The Puppet" arrepiante.

 Klaus Nomi - Total Eclipse

Ficam algumas coisas ao mesmo tempo estranhas e interessantes, como Klaus Nomi ou Jools Holland com um divertido "Foolish I Know", apesar de hoje o filme ter interesse principalmente histórico e arqueológico, para perceber quem resistiu ou não à passagem do tempo e da moda. Isso não impede de desfrutar um fantástico "Enola Gay" dos Orchestral Manoeuvres In The Dark ou os DEVO e o seu "Uncontrollable Urge".

DEVO - Uncontrollable Urge

Como se percebe claramente em "Down In The Park" de Gary Numan, é um filme datado, salvo algumas bandas ou músicas, que são excepção na lista completa. O resto, é o retrato duma geração entalada entre a revolta dos Sex Pistols, o luto de Ian Curtis e a esperança nos Talking Heads. Não é um defeito, é uma constatção e, no fim, muita coisa interessante ficou na altura, que hoje apenas libertará um sorriso ou um encolher de ombros.




quinta-feira, junho 02, 2016

UMA CASSETE PARA VOCÊS OUVIREM


Apenas um aviso à navegação: os Talking Heads eram, para mim, a "melhor banda do mundo" nos idos anos 80/90. Dito isto, resta acrescentar que "Stop Making Sense" é filmado pelo multi-oscarizado Jonathan Demme ("Silêncio dos Inocentes" e "Forrest Gump") e isso faz toda a diferença na apreciação deste filme.


Registado em 1983 em Los Angeles, durante duas noites, a primeira impressão que fica do filme é o espírito anti-teledisco que Demme imprime ao ritmo da filmagem. Numa época em que os video-songs faziam furor, "Stop Making Sense" utiliza principalmente planos quase fixos e travelings longos, contrariando a técnica preferida da MTV.

Once In The Lifetime

Toda a despesa do movimento que se espera de uma banda rock, fica a cargo dos Talking Heads, com David Byrne no seu melhor, saltando, correndo, contorcendo-se, como uma marioneta louca - ou manipulada por um ator louco!

Life During Wartime

Os Talking Heads nunca foram uma banda consensual, estavam fora do movimento punk - que, dizem alguns, já tinha morrido na altura -, não se encaixavam no tradicional movimento pós-punk - na altura liderado pelos Joy Division, Bauhaus e companhia - e a sua new-wave estava contaminada com influências africanas explicitas (e implícitas) que os atirava para um canto muito pouco mainstream.


"Stop Making Sense" permanece com uma das melhores combinações entre cinema e música, para o que contribuiu a energia contagiosa dos Talking Heads e a técnica exemplar de Jonathan Demme. Mesmo quem não é especialmente apreciador da banda, não consegue deixar de entusiasmar-se com o divertimento que é oferecido no palco, ao mesmo tempo que não pode deixar de apreciar a competência com que o realizador apresenta o concerto.

Heaven

Tanto quanto sei, este filme nunca estreou em Portugal no (chamado) circuito comercial e teve uma primeira apresentação no extinto Rock Rendez Vous, como primeira parte do (fantástico, diga-se de passagem) concerto dos Heróis do Mar. Lembro-me de, mais tarde, ter passado na Cinemateca Portuguesa,  pelo que é, portanto, um privilégio de muito poucos, apesar de circular com facilidade em CD e DVD.

terça-feira, maio 31, 2016

MAY YOU STAY, FOREVER YOUNG


Como todos os concertos, "A Última Valsa" tem momentos altos e baixos. Ao fim de 40 anos, esses momentos parecem ir variando um pouco, talvez porque haja coisas que gostávamos e já não gostamos, ou porque há outras coisas que não gostávamos e passámos a gostar.

"The Last Waltz" - disco completo

Para mim, ficarão para sempre a melhor versão de "Up On Cripplr Creek" e as fantasticas interpretações de "Helpless" com Neil Young e a invisível Joni Mitchell, "Manish Boy" com Muddy Waters ou "Mystery Train" com Paul Butterfield, isto apenas entre muitas outras. São aquelas que duraram 40 anos e hão-de durar mais 40.


O filme (ou "documentário"?) começa com um aviso: "Este filme é para ser ouvido alto"! Claro que há momentos estranhos como a atuação de Neil Diamond e o seu "Dry Your Eyes". É óbvio que o cantor não pertence àquele grupo, mas por outro lado serve para acentuar o à vontade com que os The Band acompanham quem quer que seja.

"Further Up The Road" - Eric Clapton with The Band

Na época de estreia, houve momentos que deram mais que falar que outros. O duelo de guitarras entre Robbie Robertson e Eric Clapton alimentou muita discussão. Mas se virmos bem, a versão de "Further Up The Road" que Clapton leva ao palco, não sendo desinteressante, é indiferente. O guitarrista parece pouco empenhado, como se estivesse a oferecer uma prenda a um amigo de quem não é especialmente próximo.


O filme (ou "documentário"?!) acaba em apoteose e essa apoteose contêm uma das melhores versões de "Forever Young" que Bob Dylan alguma vez conseguiu: elétrica, fanhosa e arrasadora. Aliás, Bob Dylan parece ser o grande mestre de cerimónias da celebração, nada de estranho se considerarmos que foi precisamente como banda de suporte de Dylan que os The Band ganharam notoriedade.

"Forever Young" - Bob Dylan with The Band

É verdade que "The Last Waltz" vai fazer 40 anos - o que é uma idade mais que suficiente para muitas das músicas que o integram -, mas permanece como um dos melhores filmes-documentário de um concerto que já foram produzidos. Isso deve-se muito mais a Martin Scorcese e muito menos aos músicos que vão passando pelo palco, alguns deles perfeitamente desconhecidos das gerações mais novas.
 
Martin Scorsese
São duas horas bem passadas, quer para quem gosta de música, quer para quem gosta de cinema. Scorsese vai entrevistando os membros dos The Band nos intervalos e  vamos colando um puzzle que é atirado para o público logo de inicio: porque é que uma banda de rock decide terminar a sua carreira no auge da fama? Ou, pelo menos, no auge da sua forma técnica e criativa?

quinta-feira, maio 26, 2016

UMA GERINGONÇA EM GLÓRIA



Seis meses foi o prazo que eu dei à coligação que governa Portugal desde Outubro. Depois, com a entrada - previsível e, ao mesmo tempo, inesperada - do PCP nas contas da coligação, emendei a mão e depositei alguma esperança na geringonça - sem esquecer que o ex-ministro Paulo Portas tem direitos de autor sobre a expressão.


É verdade que a maior parte das decisões tomadas até agora, foram apenas desfazer o mais impopular do governo anterior e, ao mesmo tempo, aprovar leis de mera propaganda: o aumento do ordenado mínimo, a redução de algumas taxas de IRS e os compromissos com o Bloco de Esquerda - a adoção  por casais do mesmo sexo, por exemplo. Mas mais tarde ou mais cedo, o governo vai ter de tomar opções sérias e a longo prazo.


A entrada em cena do presidente Marcelo Rebelo de Sousa desviou as atenções para a política dos afetos, fazendo o pessoal olhar mais para Belém que para a Praça de S. Bento. Isso deixou António Costa e a geringonça com algum espaço para respirar, apesar de algumas crises internas com os tabefes do ministro da cultura e a demissão de um secretário de estado que ninguém conhecia, João Meneses do Ministério da Educação.


Portugal tem um governo de esquerda - ou, pelo menos, controlado pela esquerda! - desde os dias da revolução. É um governo que vai andando entre a necessidade do Bloco de Esquerda de se fazer importante e a complacência do Partido Comunista, que parece estar assim a modos que a ver "onde as modas vão parar". Tal como qualquer geringonça, vai andadando e fazendo o seu trabalho. Não é grande coisa e, mais tarde ou mais cedo, vai ter de começar uma viagem longa, isto se realmente quiser durar os quatro anos da legislatura.


O que acontece com a maioria das geringonças, é que servem para dar umas voltinhas ali no bairro, ir ao supermercado e ao café, mas quando são chamadas a tarefas mais exigentes, acabam por falhar e encostar. Quem irá beneficiar se o governo-geringonça parar? António Costa e o seu PS, certamente, que irão prolongar este estado de dar o que não tem, até a coisa dar o badagaio. Enquanto isso, os dois partidos de esquerda que vão servindo de suporte, olham de lado um para o outro, a ver qual assumirá o ónus duma possivel queda do governo, quando as coisas começarem a encravar.


segunda-feira, maio 23, 2016

AVISO SÉRIO E HONESTO


 "Assalto a Londres" é tão mau, que devia haver um abaixo assinado para ser proibido!


 É verdade que há filmes tão maus, que se tornam filmes de culto - o meu favorito continua a ser "O Ataque dos Tomates Assassinos"! - e também é verdade que há filmes tão maus, que se tornam imperdiveis por isso mesmo - recordemos, apenas, o "Showgirls" do ex-"Instinto Fatal" Paul Verhoeven.


Não é o caso de "London Has Fallen". Este é mau, mau mesmo, por principio e for natureza. O realizador não sabe o que é uma câmara de filmar, os argumentistas não sabem escrever  - dos diálogos nem vale a pena falar!... - e o resto é uma espécie de dolorosa passagem de tempo entre o tédio e o espanto horrorizado.


 É verdade que trás Morgan Freeman, mas deve ter sido um erro de casting. Resta saber de o erro foi do ator quando leu o script, ou dos produtores quando o convenceram a entrar no filme.


Claro que todos somos livres, mesmo de ver os piores filmes do mundo. Mas vão munidos de muitos comprimidos para o enjoo, ou de muito sentido de humor, para se rirem de vocês próprios por terem entrado no cinema. E não digam que não foram avisados!

quinta-feira, maio 05, 2016

O QUE AMAMOS ODIAR


Quentin Tarantino é um homem de clichés.  Primeiro, os clichés que rouba a todos os filmes que gostamos, de "Saturday Night Fever" a "Rio Bravo", sem exceção nem pudor. Uma pilhagem descarada e indiscriminada a todo o cinema, de Leste a Oeste.
Segundo, os seus próprios clichés. Cenas que se parecem repetir de filme para filme e que nós sabemos que já lá estão, só não sabemos quando vão aparecer.


"Os Oito Odiados" não foge a nenhum dos clichés que amamos: o dos westerns e os do próprio Tarantino. E a mistura dos dois faz um cocktail dramático do melhor que se viu em 2015. Os espaços abertos dos cow-boys de John Ford e John Wayne e a tensão nervosa de "Cães Danados" ou "Django Libertado".


E Tarantino não se faz rogado. Vai buscar a velha Panavision e filma em 70 milímetros - coisa que a maior parte dos espetadores não verá, nos cinemas atuais -, e vai buscar o próprio Ennio Morricone para a banda sonora - o padrinho de todas as bandas sonoras e, provavelmente, o único homem à face da terra que sabe meter em música uma boa cóboiada!


Depois há a escolha dos atores. Se há alguém que sabe meter o homem certo no lugar certo é Tarantino e estamos cheios de exemplos que não mentem: o Vicent Vega de John Travolta, "A Noiva" de Uma Thurman ou o Coronel Hans Landa de Christoph Waltz. Quem mais poderia ser Daisy Domergue, para além de Jennifer Jason Leigh? Ou John Ruth, para além de Kurt Russell?


"Os Oito Odiados" é tudo o que se espera dum Tarantino, com a violência de Django, o nervosismo de "Cães Danados" e o humor de  "Sacanas Sem Lei". Tudo alargado em Panavision e com música celestial. Tal e qual como nos nossos tempos de criança, quando Sergio Leone atirava às feras um Clint Eastwood quase adolescente.