sábado, março 24, 2018

VEZES ZERO, IGUAL A ZERO

CRÉDITOIS COMPLETOS

Eu não desgosto de Nicolas Cage. um actor muito subvalorizado e com mau gosto para escolher projectos, mas que tem no currículo algumas obras brilhantes como "Rumble Fish" ou "Morrer em Las Vegas"; também não desgosto de Robin Tunney, a bela Teresa Lisbon de "O Mentalista", actriz profícua em series de TV. Quanto ao realizador Tim Hunter - homem especializado em televisão -, não deixa de ser sempre uma incógnita quando se trata de longas metragens, mas que já dirigiu o desconcertante e injustamente ignorado "River's Edge".


Dito isto, resta acrescentar que "Looking Glass" é como uma multiplicação por zero: dá zero. É um filme que não tem sentido, não tem ritmo, não tem direcção. E embora não carregue nos ombros más interpretações, os actores estão ali como se não estivessem. A história está mais que vista - lembram-se de "Os Outros" de Alejandro Amenábar? -, mas neste caso e a multiplicar a isso, não tem ponta por onde se lhe pegue, não tem interesse, não tem suspense, é um resultado absolutamente nulo.


O casal Ray (Nicolas Cage) e Maggie (Robin Tunney) adquirem um motel no deserto, aonde acabam envolvidos em misteriosos acontecimentos, remanescentes de antigas ocorrências no local. Nada de novo, o que não impediu Nicole Kidman de arrasar em "Os Outros" ou o casal Kate Backinsale e Luke Wilson de assustar plateias em "O Motel". O problema de "Looking Glass" não é sequer a repetição, mas a ausência total de qualquer coisa.


Este filme desperdiça o talento do elenco num argumento completamente vazio, preenchido com os piores clichés do género, que vai repetindo cena após cena. A determinado ponto, parece que toda a plateia suspira de desespero, gritando em silêncio "mais não, mais não!...", tal é a saturação de zeros seguidos de zeros ad infinitum.


"Looking Glass" vem classificado um thriller psico-sexual. É uma mentira porque não tem nada que se possa comparar seja ao que for, para poder ser rotulado seja do que for. Na verdade "Looking Glass" é um mero desperdício de tempo para o espectador, para dizer o mínimo, principalmente para aqueles que gostam de thrillers, sejam eles psico-sexuais ou não. Quando o filme acaba, a plateia sai do cinema como uma simples multiplicação por zero: com um resultado igual a zero.

quarta-feira, março 14, 2018

COMPETÊNCIA ENTRE INFANTILIDADES

Aniquilação: CRÉDITOS COMPLETOS

"Annihilation" é a segunda incursão de Alex Garland na realização, depois do surpreendente "Ex Machina", mas na realidade é apenas mais um na longa lista de adaptações de novelas, coisa que ele sabe fazer melhor que ninguém, como se percebe pelo fantástico "Nunca Me Deixes". Este é um daqueles filmes que vão deixar alguns espectadores sem saber o que pensar: tem tantas qualidades como defeitos, um conjunto agradável, formado a partir de pormenores às vezes desadequados.


A ver se me explico: começa por parecer um "teoria da conspiração", passa a piscar o olho a um "tiro neles", toma ares de ficção cientifica e acaba por ficar muito mais próximo de "Stalker" de Andrei Tarkovsky do que de qualquer outra coisa que já tenhamos visto até agora. Em certos momentos parece o "Predador" para intelectuais, noutros momentos é misterioso como "2001: Odisseia No Espaço". Tem tantos pozinhos do "Alien 2" de James Cameron como de "A Origem" de Christopher Nolan.


Apesar de muitos pormenores desadequados - como ter demasiadas metralhadores e diálogos por vezes infantis -, "Annihilation" é um filme que se segue com interesse, envolve um mistério que o espectador não deixa de querer resolver e é alimentado por um conjunto de interpretações que, não sendo brilhantes - ou, se quiserem, ficam aquém do que sabemos ser possível, porque já vimos noutras ocasiões -, não desiludem ninguém.


Um grupo de cientistas - numa expedição secreta - penetra numa "zona", na busca duma explicação para o mistério que a envolve, depois de vários grupos militares terem desaparecido em tentativas semelhantes. E embora o conjunto cientifico seja formado apenas por mulheres, este não é um filme feminino no sentido literal do termo, já que o género é indiferente para o desenrolar da acção.


"Annihilation" está longe de ser o melhor filme do mundo, mas entre mutações genéticas e animais sanguinários, Alex Garland vai construindo um filme misterioso, com ritmo e desenvoltura, que a plateia não tem qualquer dificuldade em seguir com interesse, mesmo que em certos momentos sorria por dentro com algumas infantilidades. Nestas tardes frias e tempestuosas, uma sala de cinema com obras como esta, parece o Paraíso.

sexta-feira, março 09, 2018

A VIOLÊNCIA PODE SER UMA PIADA

Três Cartazes à Beira da Estrada: CRÉDITOS COMPLETOS

A imagem de Frances McDormand vai estar sempre colada à da policia Marge, que entre rios de sangue e selos de correio, soluciona o mistério de "Fargo", escrito e realizado pelo marido Joel Cohen e pelo cunhado Ethan Cohen - que, aliás, já a tinham dirigido noutra maravilha dos irmãos: "Sangue por Sangue".


E a imagem de "Fargo" nem sequer é inocente neste "Three Billboards Outside Ebbing, Missouri", nem o registo de Frances McDormand é assim tão diferente. Ambos são comédias negras duma violência atroz, embora no primeiro ela possa ser mais explicita que aqui, onde a tensão é latente, mais pressentida que visual. No entanto, ambos são aquele género de filmes em que o espectador se irá perguntar se esteve a ver um policial sanguinário ou uma comédia, quando, na verdade, esteve a ver ambos.


A filha de Mildred (Frances McDormand) é violada e assassinada - não necessariamente por esta ordem, segundo se dá a entender - e revoltada com a inoperacionalidade da policia local, a mãe decide colocar à beira da estrada de entrada na cidade, três outdoors de provocação às autoridades. Sendo uma localidade da América sulista profunda, com o seu conservadorismo e tradições enraizadas, esta acção vai provocar uma sucessão de acontecimentos trágico-cómicos, que levarão a consequências violentas e imprevisíveis.


Embora Frances McDormand seja a estrela maior da companhia, a verdade é que é auxiliada por um elenco de tal forma brilhante, que o filme se torna uma exibição de talento na arte de representar: Caleb Landry Jones (o filho), Woody Harrelson (o chefe da policia), Zeljko Ivanek (o sargento), todos eles formam um elenco exemplar, levando o realizador e argumentista Martin McDonagh ao êxtase.


Não se pode dizer que eu tenha entrado no cinema completamente às cegas para ver este filme, mas a verdade é que também não estava à espera de tal brilhantismo, no desenvolvimento do argumento, no requinte do humor negro, na tensão latente e num final onde a solução do crime é o menos importante, contrariando todos os clichés do género. O filme conjuga um aglomerado de elementos brilhantes, colocados em conjunto entre si de forma a fazer todo o sentido em conjunto.


Enquanto candidato aos Óscars da Academia de Hollywood, e colocado lado a lado com "A Forma da Água" - que, como sabem, adorei! -, podemos dizer de o júri tem um problema: ao contrário de outros anos em que há um nítido vencedor ou, por outro lado, não há nenhum que devesse ganhar, este ano estamos perante duas obras tão diferentes quanto brilhantes.

terça-feira, fevereiro 27, 2018

DO PRINCIPIO AO FIM

CRÉDITOS COMPLETOS

Se é que alguma vez estreou no circuito comercial em Portugal, "El Cuerpo" deve ter passado logo para as prateleiras dos vídeoclubes, esquecido na secção de "terror" da série "B", onde deve ter ficado a ganhar pó. Um engano! Este é um excelente policial, interessante e carregado de mistério, que luta de forma brilhante com as armas que tem.


O corpo de Mayka  Villaverde (Belén Rueda), uma poderosa mulher de negócios, desaparece da morgue. O inspector Jaime Peña (Jose Coronado) e a sua equipa policial tentam perceber o como e o porquê do mistério: vingança contra a família? Tráfico de órgãos? Rituais satânicos?... E a partir daqui, o realizador Oriol Paulo dirige um filme de poucos recursos mas de muito esplendor.


Inteligente, bem interpretado, com uma cuidada produção, "El Cuerpo" agrada a todos os tipos de plateias que se interessem por mistérios policiais: haverá os que seguirão as pistas, tentando adivinhar a solução; haverá os que apenas se deixam ir na história sem preocupações. Ambos se irão divertir. Repleto de reviravoltas emocionantes - das quais a última é apenas a cereja no topo do bolo -, o filme é um belo passeio, às vezes em velocidade de cruzeiro, às vezes a alta rotação.


"El Cuerpo" é um daqueles thrillers que envolve o espectador do principio ao fim, envolvendo a sala numa maravilhosa tensão emocional, servido por um elenco muito competente, dirigido com mão de mestre e alimentado a diálogos bem escritos. Não deixando de ser um "série B", é acima de tudo um elogio à produção europeia de cinema de alta qualidade.


Não dispondo dos recursos hollywoodescos - que, em muitos casos, servem para vulgaridades medíocres -, "El Cuerpo" é um daqueles casos raros em que estamos perante uma obra interessante, que vão levar o espectador a sentir-se agradecido por ter entrado no cinema e naquela sala em particular. Mexe com a mente e satisfaz o corpo. Hurra!

segunda-feira, fevereiro 12, 2018

TODOS OS ROMANCES DO MUNDO

A Forma da Água: CRÉDITOS COMPLETOS

Tenho a confessar que fui para "The Shape of Water" com muitos bons preconceitos. O primeiro deles, acerca de Guillermo del Toro, de quem sou um grande admirador, o pai de "Hellboy" e o director do gótico "Crimson Peak"; depois, a minha paixão por Sally Hawkins, que não possuindo aquela beleza estereotipada de Hollywood, partiu o meu coração em filmes como "Uma Outra Educação", ou "Nunca me Deixes", ou "X + Y"; finalmente, as 13 nomeações para os Óscars, que o deixam logo num patamar ao nível de "E Tudo o Vento levou" ou "Quem Tem Medo de Virginia Wolf?".


Este "The Shape of Water" é, na sua essência, um simples romance. A história de Elisa Esposito (Sally Hawkins), empregada da limpeza num laboratório espacial americano, que se apaixona por um ser aquático, encarcerado para investigação. Os leitores destas páginas já sabem como eu adoro romances, só que também sabem como eu separo romances de romances. E este é um daqueles que há-de ficara colado à pele dos espectadores para o resto da vida, não como "Casablanca" (que esse é de outro planeta), mas certamente como "Titanic" ou "A Paixão de Shakespear", apenas como exemplo.


O que salta logo à vista é a forma como Guillermo del Toro trata a câmara, como se trabalhasse filigrana sensível, com pequenos zooms e travellers subtis, de tal forma que a plateia é sempre conduzida para o que realmente importa, levada pela mão numa viagem suave, como se estivesse num carro conduzido pelo mais competente motorista, daqueles que nos permitem ir no banco de trás a ler o jornal, sem solavancos, travagens bruscas ou curvas dinâmicas. Tudo isto servido de bandeja por um elenco de tal forma eficiente, que cada um só podia estar ali a fazer exactamente o que está a fazer.


"The Shape of Water" não renuncia a todas as referências que ele próprio mete à nossa frente, desde "A Família Adams" aos mais infantis contos de fadas, aqui com um erotismo de cortar a respiração. Guillermo del Toro gosta tanto de "O Monstro da Lagoa Negra" como de Fred Astaire, e nunca tem vergonha de assumir essa bipolaridade entre o brejeiro e o horroroso - a começar pela beleza colorida da criatura por quem Elisa se apaixona. Este é um filme saboroso: sabe bem quando se está a ver, sabe bem depois quando pensamos no que estivemos a ver e sabe bem no divertimento que provoca no espectador e que, vendo bem, é consequência do prazer que toda a equipa parece ter a faze-lo.


Vamos-nos deixar de esquisitices: este filme não é nada mais do que se pode ver à primeira vista, um romance, como já disse, só que um romance pintado de um colorido fascinante. Se o deixarem ser o que realmente é, transforma-se numa experiência única de prazer e divertimento. Guilhermo del Toro e a sua equipa, aos ombros do conjunto de actores que escolheu, cria um conto de fadas para adultos sobre comunicação, simpatia e amor incondicional. Está aqui tudo, de "Eduardo Mãos de Tesoura" a "A Bela e o Monstro". Vamos desfrutar dum momento de cinema único, fascinante e retemperador.

quinta-feira, janeiro 18, 2018

O SACRIFÍCIO DE IFIGÉNIA

Recanto das Letras - Ensaios: "Ifigénia" de Eurípides (trad. Fabio Renato Villela)

O Sacrifício de Um Cervo Sagrado: CRÉDITOS COMPLETOS

Desde "The Lobster" que eu sou um fanático e obsessivo seguidor de Yorgos Lanthimos e do seu co-argumentista Efthymis Filippou. Este "The Killing of a Sacred Deer" não foge ao universo estranho e inexplicável da equipa e, como de costume, não é um filme que toda a gente vai gostar, embora os seguidores do realizador grego já estejam habituados a viver num mundo que (parece) só eles conseguem compreender.


Comecemos pelo principio: a morte do veado é uma referência à tragédia "Ifigénia" de Eurípides, na qual o deus Agamemnon se vê obrigado a sacrificar a sua filha mais velha, por ter morto o veado favorito de Artemis. E embora uma espingarda de caça venha a desempenhar um papel central neste filme, não é de tiros e acção que estamos a falar, muito pelo contrário! A metáfora é muito mais próxima do mecanicismo cartesiano: toda a acção inicia uma reacção.


O cirurgião cardíaco Steven (Colin Farrell), vê-se envolvido numa dramática decisão, devido à (ou "a partir da") sua relação com Martin (Barry Keoghan), um jovem que ele decide (ou "parece") proteger e introduzir na sua família. E embora a história se possa resumir, sem spoilers, a estas duas personagens, elas estão longe de ser a parte central do drama, onde brilha mais alto a luminosa Nicole Kidman (Anna Murphy, a esposa de Steven), ou os filhos Kim e Bob (Raffey Cassidy e Sunny Suljic).


O filme nunca ganha uma velocidade estonteante, mas começa realmente devagar. No entanto, desde os primeiros momentos que o espectador sente uma certa comichão cada vez que Martin é introduzido na cena. Para além disso, embora o núcleo familiar dos Murphy pareça estável, desde muito cedo percebemos que algo pode explodir a todo o momento, com cenas de amor consensual mas estranhas e relações paternas distantes, frias e impessoais. Tudo parece no lugar, mas nada encaixa no sitio que deve estar... Se é que me faço entender...


Yorgos Lanthimos diverte-se a guiar a plateia por uma estrada que nunca sabemos onde vai dar, introduzindo constantemente reviravoltas, revelações e segundos-sentidos. Como um cruzamento sem setas a indicar o caminho, incluindo os diálogos dos personagens, repletos de sugestões indirectas, que obrigam o espectador a estar constantemente a ler nas entre-linhas. E, sejamos claros, quer Colin Farrell, quer Nicole Kidman, são absolutamente demolidores a desempenhar estes papeis.


Quando são reveladas verdades horríveis, elas parecem recitadas como os versos de uma tragédia grega, parecendo uma confissão para redimir pecados. Cada espectador irá ter a sua própria visão deste drama bizarro e pesado. Eu foi passando de incomodado a assustado, de horripilado a confuso, de surpreendido a enjoado... Certamente que Lanthimos e Filippou se teriam rido e divertido muito comigo!

quarta-feira, janeiro 17, 2018

TOMEM LÁ O CHEQUE E DESPACHEM-SE!...

Ameaça Global: CRÉDITOS COMPLETOS

Imaginem o director dum estúdio qualquer (neste caso especifico o Skydance) a dizer para o grupo dos piores empregados que lá tem, que "este fim de semana tenho lá o meu filho de 12 anos em casa, façam-me aí um filme com naves e explosões para o entreter durante hora e meia. Tomem lá 120 milhões para uns actores conhecidos que andem por aí sem fazer nada e vão ao trabalho!". Os técnicos (passe o exagero!) olharam uns para os outros, alinharam uns diálogos numa teoria da conspiração, meteram umas cenas com space-shuttles e fizeram o pior que sabiam para entreter miúdos que os pais não querem a chatear pela casa. Isto é "Geostorm"!


Há filmes que nunca deviam ser feitos, sob pena de serem considerados crimes contra a humanidade e darem direito e levar ao Tribunal de Haia toda a equipa envolvida. É o caso deste, tão ridículo que envergonha até o espectador, só por se ter decidido a comprar o bilhete e a sentar-se na sala. Desde o título à interpretação, dos diálogos ao enredo, tudo em "Geostorm" é um falhanço completo: conversas de fazer corar as redacções das crianças da 4ª classe - salvam-se meia-dúzia de piadas bem metidas, o que é muito pouco para quase duas horas de filme -, efeitos especiais e cenas de acção de matar de riso os Disney dos anos 30, um argumento que deve ter sido escrito a partir duma conta de super-mercado...


E o pior é que até conta no elenco com algumas caras interessantes como Ed Harris ou Andy Garcia, que ainda hoje devem estar a pensar como é que foram ali parar, de onde é que os foram buscar para integrar esta história disparatada de um americano maluco (não, não se chama Trump!...) que, para dominar o mundo - ou algo parecido -, decide colocar um vírus informático no grupo de satélites colocados no espaço para controlar as alterações climáticas, que estavam a destruir o planeta. O problema é que, quando começam a desenvolver a coisa, o realizador e co-argumentista Dean Develin, juntamente com o co-argumentista Paul Guyot, metem de tal forma os pés pelas mãos, que é óbvio que não sabem o que querem nem como fazer o que não sabem que sabem que não sabem. Percebem?...


"Geostrom" deve ser o pior filme de 2017, senão um dos piores do século XXI ou mesmo de todos os tempos. Talvez até sirva para entreter crianças de 10 anos, para elas não andarem a correr pela casa a chatear, mas mesmo isso é duvidoso que consiga, se elas forem minimamente inteligentes e tiverem um mínimo de gosto por cinema. Talvez se riam das explosões, se entusiasmem com as cidades inundadas, mas o mais provável é encararem o filme como uma comédia. Não é má solução para manter bebés ocupados, mas é uma péssima opção para gastar dinheiro a ir ao cinema.

quarta-feira, janeiro 10, 2018

AS VANTAGENS E AS DESVANTAGENS DA TV

Amor e Justiça: CRÉDITOS COMPLETOS

Esta não é a primeira vez que falo aqui de filmes que caiem do céu através da TV. Ver cinema na televisão tem vantagens e desvantagens, sendo a primeira de todas o total controlo da minha vontade. Ao contrário da sala de cinema, na sala da casa eu tenho o comando, só não mudo se não quiser. As desvantagens, pelo contrário, são inúmeras: a distracção - um cigarro, a conversa com a companhia, a ida ao frigorífico para uma cerveja, o telefone ou o vizinho que bate à porta. "Freeheld", no entanto, manteve-se o centro de todas as atenções e ainda bem.


A detective Laurel Hester (Julianne Moore) é diagnosticada com cancro, restando-lhe pouco tempo de vida, pelo que decide entregar a sua pensão à companheira, Stacie Andree (Ellen Page), mas o que seria uma opção normal em famílias tradicionais, torna-se um jogo politico devido à ausência de leis que regulamentem o casamento entre casais do mesmo sexo no estado de New Jersey. "Freeheld" é, portanto, um filme a puxar à lágrima, entre um drama familiar e os bastidores da burocracia.


Um filme que começa por parecer um policial sem sabor, passa depois por parecer um romance revolucionário sobre homossexualidade feminina, acaba por ser realmente um grito de revolta pela igualdade e pela justiça, sem hastear bandeiras hipócritas nem moralismos sem sentido. Apenas uma história sobre o amor e sobre os direitos humanos com base nas relações familiares, sejam quais forem as opções sexuais individuais. Não é muito e "Freeheld" não vai muito longe. É quase um "filme de tribunal", feito de forma ligeira mas sobre assuntos que tocam a todos.


A luta de Laurel e Stacie é muito mais colectiva que particular e o realizador Peter Sollet sabe bem fugir a estereótipos e falsas moralidades. O problema do casal poderia ser entre duas pessoas heterossexuais, que por decisão própria decidissem não casar, mas apenas viver juntas. É por isso que a homossexualidade dos personagens centrais é tão secundaria como o facto do filme começar por ser uma simples investigação policial. A partir de certa altura Michael Shannon (detective Dane Wells) toma as rédeas da acção e domina o ecrã, passando Laurel e Stacie a funcionarem quase como secundárias.


Quem já me conhece, pode dizer que gostei de "Freeheld" por causa das actrizes principais que admiro, mas garanto que é muito mais, até porque o filme exibe um elenco luxuoso e competente. Gostei do filme porque tem tudo o que é preciso para ser um final de dia com bom cinema. É um daqueles filmes que, provavelmente, não voltarei a ver, mas que não lamento nem um segundo do tempo que estive a ver desta vez.

segunda-feira, janeiro 08, 2018

TER ASAS E NÃO VOAR

O Boneco de Neve: CRÉDITOS COMPLETOS

Pelo que tenho percebido, "The Snowman" tem duas perspectivas para ser avaliado: há aqueles que conhecem a obra de Joe Nesbo e que criticam o filme por ser mais um policial que um filme de terror - que, segundo parece, é a matiz do livro -, por ter renunciado à violência explicita e optar por um registo mais misterioso que sanguinário, e depois os que, não conhecendo a história original - nos quais me incluo -, gostam do filme só porque é um policial competente, sem rasgos de genialidade, mas bastante bem conseguido.


O principal problema de "The Snowman" é a falta de simplicidade, os constantes recuos e avanços para explicar a história, que tornam a acção confusa e desnecessariamente emaranhada. Tentando dar-se ares de inteligente, acaba por perder demasiado tempo com o acessório esquecendo a trama central. Isso acaba por fazer com que o filme - sem dúvida competente - não descole do chão, quando percebemos que tem asas para voar muito alto.


Ao investigar o desaparecimento duma mulher, o detective Harry Hole (Michael Fassbender) depara-se com um complicado caso de um serial-killer e, para o solucionar, vai contar com a ajuda da competentíssima companheira Katerine Bratt (Rebecca Fergunson). Para contar esta história, que poderia descambar num simples espalha tripas, Tomas Alfredson dá voltas para complicar, tentando desesperadamente criar um policial emaranhado, onde poderia estar apenas um mistério simples e directo.


Não há qualquer problema em admitir que "The Snowman" é um filme competente - vamos deixar o livro de lado, também porque não conheço a história que foi um best-seller em 2007 -, mas há menos problema ainda em admitir que deixa um vazio de possibilidades, naquele sentido em que o espectador tem sempre a sensação que está perante um produto de qualidade, mas que no fim acaba por saber a pizza de micro-ondas, muito por culpa do próprio cozinheiro.



"The Snowman" é confuso porque Tomas Alfredson baralha o que podia ser simples. Irá agradar a quem gosta de histórias que vão colando peças ao longo do caminho e que têm reviravoltas finais, mas vai deixar um sabor amargo porque, com tantas complicações e para acabar dentro do orçamento, despacha um final algo atabalhoado e infantil. Uma tarde entretida mas não esperem muito. Promete mais do que realmente oferece.

sexta-feira, janeiro 05, 2018

NEGRO, MISTERIOSO E SOLITÁRIO: O DESESPERO

CRÉDITOS COMPLETOS

Tenho a confessar duas coisas: a primeira é que só conheci Philip K. Dick depois de "Blade Runner" de 1982 e devo confessar que "Do androids dream of electric sheep?" nem é dos meus livros favoritos do autor. Além disso, Dick - provavelmente junto com Ray Bradbury - deve ser o mais psicadélico dos autores clássicos de f.c., o que faz dos seus livros uma experiência única, tanto no domínio da literatura em geral, quer no domínio da antecipação cientifica em particular;


A segunda, é que fui para este "Blade Runner 2049" com um pé atrás. O original de Ridley Scott é considerado por muita gente como o melhor filme de ficção cientifica de sempre e, para outros, é mesmo o melhor das suas vidas. Eu não vou tão longe, mas é certamente um filme radical na cinematografia de uma vida. Fazer uma continuação de uma obra-prima é como se alguém quisesse fazer um novo Guernica ou uma nova Capela Sistina. Por isso, Denis Villeneuve tinha nas mãos uma granada prestes a explodir.


Neste ponto, convém fazer um "à parte" às novas gerações: a visualização do original de 1982, não sendo fundamental para compreender este "Blade Runner 2049", pode ser importante para compreender o envolvimento emocional e o passado. O filme de Denis Villeneuve é completamente independente do inicial e dá-nos suficiente informação para perceber o detective "K" (Ryan Gosling, ainda em glória pelo sucesso de "La La Land"), mas não para nos embrenharmos no drama profundo de Ridley Scott, que é muito mais que um romance de ficção cientifica.


E agora, vamos ao que interessa: "Blade Runner 2049" é um filme negro e misterioso, que deixará o espectador num deserto de desespero, que, como sabemos, é duma solidão mortal. É uma aventura num mundo sem esperança, onde a única solução para o amor é um abismo escuro, um túnel longo sem luz ao fundo. No final, a plateia ficará esmagada pelas ideias que andarão a rodopiar na sua cabeça. É por isso que é uma obra fundamental. Quem não vir este filme, há-de arrepender-se para toda a eternidade.


O filme começa tímido, como se fosse uma simples aventura no futuro, mas temos de reconhecer que a equipa Denis Villeneuve se deve ter sentido como Jodi Coll, quando foi incumbido de terminar a Sagrada Família de Barcelona. De repente, vê-se com uma tarefa titânica nas mãos, para além de todos os olhos postos em si - o falhanço não é opção, embora todos saibamos como a máquina de Wollywood tritura sem piedade as suas obras mais emblemáticas, rendida aos dólares e ao espectáculo, mais que ao sentimento de paternidade emocional.


O detective "K", um "replicant" (uma espécie hiper-avançada de androide) cuja tarefa é eliminar "replicants" de gerações anteriores, busca a solução para o mistério do desaparecimento de uma criança, o que o vai levar a um labirinto existencial - sim, os "replicants" têm "existência" tal como a entendemos em Kierkgaard, ou Heidegger, ou Sarte. Ryan Gosling vai muito bem na pele do personagem perdido entre o que é, o que sabe que é e o que deseja ser, e Denis Villeneuve cria um mundo devastado e sem futuro, onde se movimentam personagens devastados e sem futuro. Tudo se combina para um drama sem saída.


Apesar de todas as excelentes criticas, "Blade Runner 2049" foi um flop, tal como o original de Ridley Scott tinha sido na altura da estreia. Além disso, num ano com muita e boa ficção-cientifica - "Gohst in the Shell", "Valerian e a Cidade dos Mil Planetas", o último Wolverine de Hugh Jackman, "Bokeh", enfim, uma lista extensa  -, um filme depressivo, apesar de inteligente, vai demorar tempo a digerir. O que o futuro reserva a esta obra é uma incógnita, tal como o foi para o primeiro "Blade Runner" - que, com pezinhos de lã, acabou por se tornar um icon do cinema.


A fasquia para "Blade Runner 2049" estava muito alta e, no entanto, os argumentistas Hampton Fancher e Michael Green assumem os riscos sem medo nem pudor, enquanto Denis Villeneuve dirige um conjunto de actores exemplarmente empenhados. A narrativa leva o espectador por um mundo devastado, sem futuro e sem esperança, tão deprimido com o próprio "K". Todas as ansiedades existenciais possíveis atravessam o filme de forma esmagadora, como o martelo de Nietzsche, que durante duas horas e meia insiste em assombrar o cérebro da plateia.


Só mais um aviso: esqueçam os trailers que vão ver por aí. "Blade Runner 2049" está longe de ser uma aventurazinha de ficção científica. Este filme é uma obra negra e misteriosa, sobre um policia solitário e todas as crises existenciais que a busca por uma criança desaparecida lhe vão provocar. Pode parecer pouco, mas no final, quando estiverem a sair da sala, aquela estranha sensação de melancolia que vai imperar na vossa cabeça, não é fruto do acaso. É a consequência do cinema que vale a pena ser visto.