sábado, julho 29, 2017

PAIXÕES PROIBIDAS

Uma Outra Educação: CRÉDITOS COMPLETOS

Vamos já esclarecer uma coisa: eu sou um apaixonado de Carey Mulligan, desde que vi "Nunca Me Deixes", um filme tão intenso, dramático e misterioso, cuja impressão em mim foi tão poderosa, que nunca mais lhe consegui pegar, apesar ter ter planos para o fazer mais tarde ou mais cedo. Foi só por ela que peguei neste "An Education" de 2009, ela e a habitual relação aleatória do IMdB, que me levou de "Heróis da Nação", também de Lone Scherfig, para aqui.


 Quando escrevi a crónica de "Heróis da Nação" já tinha dito que Lone Schefig não é a mais exuberante das realizadoras e que o estilo tem muito mais de competente que de espetacular. E este "An Education" é exatamente isso: pouco expansivo, sem correrias, mas intenso e dramático. Uma história que incomoda, seja qual for o ponto de vista que se olhe: a relação dum homem de meia idade - Danny (Dominic Cooper) - com uma rapariga de 16 anos - coisa que, reconheçamos, Carey Mulligan está longe de parecer, por muita maquilhagem que a cubra -, Jenny, sem que isso envolva o que habitualmente se chama de abuso - no sentido em que a jovem está envolvida na situação em consciência e de livre vontade, sabendo ao que vai.



Muitos irão acusar "An Education" de falta de ritmo. O filme parece lento e enrolado, mas essa é quase como a marca de água de Scherfig. Nos três filmes que vi da realizadora - "One Day" de 2011 (de que falarei aqui brevemente), este de 2009 e "Heróis da Nação" de 2016 - a realizadora demonstra não ter pressa na descrição das cenas, demora o tempo que for necessário para que o espetador se aperceba do que está em causa e para que os atores saboreiem o seu personagem na situação em que foi colocado.


Mesmo quando tenta o mais próximo que sabe da comédia romântica - o caso de "One Day" -, Lone Scherfig prefere que o riso e a comicidade resultem por a situação ser saboreada como um rebuçado que se derrete lentamente. Afinal, em certo sentido, todos os filmes aqui referidos não deixam de ser romances, embora as situações dramáticas se acumulem, de forma a criar um todo mais próximo do drama que do romance. O espetador fica sempre intrigado sobre o que realmente foi ver ao cinema.


Este "An Education" sofre do mesmo mal - se é que é um mal! - de todos os filmes de Scherfig que falo aqui: tem à sua disposição material de primeira qualidade (a história, os atores, a cenografia, a sonoplastia...) mas depois, a forma como transforma as peças soltas numa máquina completa, parece sempre ter um grão de areia a emperrar a engrenagem. Nenhuma destas obras é má - muito pelo contrário -, mas todas elas são potencialmente excelentes e tropeçam algures, ficando-se a meio caminho entre o suficiente-mais e o bom-menos.

sexta-feira, julho 28, 2017

DO FIM PARA O PRINCÍPIO


Antes de Vos Deixar: CRÉDITOS COMPLETOS

Vamos já começar pelo fim: Samantha (Zoey Deutch) e o seu grupo de amigas, Lindsay (Halston Sage), Ally (Cynthy Wu) e Izzy (Erica Tremblay), parecem morrer num acidente de automóvel na noite de São Valemtim. Já está! O primeiro "spoiler" destas crónicas cinematográficas?... Engano. É que, a partir daí é que a aventura começa, porque a coitada da Sam vai entrar numa espiral de loucura, em que passou a acordar todos os dias no mesmo dia, dia após dia, e após dia, e após dia...


À primeira vista é como se a Samantha Kingston de "Before I Fall" tivesse encontrado o seu "O Feitiço do Tempo", ou o seu "Efeito Borboleta", ou o seu "No Limite do Amanhã", ou, sei lá, um outro qualquer, já que a história está tão explorada, que a lista não deve acabar com facilidade. Só que ao contrário do meteorologista Phil, ou de Evan, ou do soldado Cage, o dia desta adolescente é duma tal vulgaridade, que ficamos sem perceber exatamente porque razão merece ser repetido ao infinito. Ao ponto do espetador se sentir tão preso como a própria personagem.


Lauren Olivier escreveu um bestseller adolescente, que Maria Maggenti adaptou ao cinema. Como não li o livro, não sei como a autora consegue fazer com que o dia da personagem possa ter algum interesse especial, mas sei que a argumentista colocou toda uma plateia presa numa sala à espera de algo que parece não valer a pena ter acontecido. E a realizadora Ry Russo-Young fica com uma história redonda, tão redonda que não consegue parar de dar voltas no mesmo lugar.


É verdade que "Before I Fall" tem um mistério e isso vai mantendo o espetador interessado no desenlace do drama, mas a história vai avançando meio aos tropeções, entre o fim que já sabemos e os meios que, se não sabemos, vamos adivinhando sem dificuldade. Entre o desfecho e as peripécias, fica um dia repetido sem razão.


Convém os leitores destas pequenas crónicas não desistirem já de dar alguma atenção a "Before I Fall". Os atores fazem o seu papel com competência e o conjunto geral é suficientemente apelativo para merecer um olhar, pelo menos por aqueles mais interessados nas coisas da teia do tempo. Mas não esperem nada que já não tenham visto. Como um daqueles dias feitos de rotinas tão normais, que se hão-de repetir sem ser preciso fazer grande drama disso.

sábado, julho 22, 2017

PEÇAS BRILHANTES COLADAS COM MÁ COLA

Heróis da Nação: CRÉDITOS COMPLETOS

À primeira vista, "Their Finest" tem tudo para dar certo: uma história interessante, bons atores, a irrepreensível perfeição do cinema inglês e aquele humor inteligente, mordaz, que não fazendo rir, faz sorrir com gosto. Então, porque é que saímos do cinema com aquela sensação de ter assistido a um filme com enorme potencial e que, de certa forma, foi deixado a meio no que prometia?


Estamos em 1940 e a Inglaterra está em maus lençóis contra a Alemanha nazi. 300 mil soldados ingleses e franceses acabam de ser derrotados por uma divisão Panzer na batalha de Dunquerque e o Ministério da Propaganda britânico quer transformar uma derrota humilhante num episódio heróico, para o que conta com uma equipa de argumentistas de cinema: Tom Buckley (Sam Claflin) e Raymond Parfitt (Paul Ritter), aos quais se junta Catrin Cole (Gemma Arterton), esposa de Ellis Cole (Jack Huston), um artista falhado e falido.


"Their Finest" é, portanto, um filme sobre o cinema, o que, não sendo nada de novo, requer algum sentido de obsevação já que se trata de um autorretrato e parece-me que é exatamente aí que o realizador Lone Scherfig - com uma carreira, senão exuberante, pelo menos consistente - começa a vacilar, ao querer tocar em várias teclas ao mesmo tempo: a condição feminina, o non-sense do próprio cinema, o ridículo da propaganda política, o drama de Londres sob constante bombardeamento alemão...


No fim, nunca se percebe bem o que Scherfig quer fazer de "Their Finest", acabando por ficar-se num meio termo não totalmente desinteressante, mas certamente sem alma, conseguindo arrancar alguns sorrisos, mas não atingir um pico dramático que entusiasme o espetador. O filme é vitima da sua própria indecisão e, ao contrário dos bombardeiros alemães que flagelavam Londres na época, nunca consegue levantar os pés do chão e voar, apesar de todas as potencialidades que lhe reconhecemos.


Não há dúvida que "Their Finest" tem o seu encanto, os ingleses são exímios reprodutores de épocas, cenógrafos exemplares e possuem um leque de atores de qualidade superior. Tudo isso é visível. O que parece não funcionar, é a cola com que Lone Scherfig tenta fixar todas estas peças de excelência que tem ao seu dispor. O resultado final não é mau, mas tem a possibilidade de ser brilhante e fica-se pelo suficiente.

sexta-feira, julho 21, 2017

LINKIN PARK: MEIA DÚZIA DE PORQUÊS...


Faleceu Chester Bennington, um dos vocalistas dos Linkin Park, aparentemente devido a suicídio por enforcamento. Esta não é uma dissertação sobre a morte ou sobre o desespero. Vamos deixar isso para a Psicologia e para a Filosofia, que certamente têm muito a dizer acerca da fama, do desespero e de outros assuntos afins. Era verdade que ele tinha sérios problemas de álcool e drogas, mas os seus motivos serão sempre privados e opacos para nós.

Aqui interessa-nos a música e porque é que os Linking Park são uma das mais influentes bandas para uma geração que, agora, tem um mártir, como outras tiveram o Jim Morrison e a Janis Joplin, tiveram o Ian Curtis ou o Kurt Cobain.

Os Linkin Park estão numa gaveta a que os mais metódicos chamam de "nu metal", mas a verdade é que estão num limbo que os fazia serem escutados tanto pelos amantes da pop - que se surpreendiam por gostarem dum rock mais esgalhado -, como pelos amantes do metal - que os ouviam às escondidas e escondiam a sua preferência do resto do grupo de amigos, sem se aperceberem que, todos os outros, também os ouviam em segredo.

Eu ouvi Linkin Park exaustivamente e foi uma das minhas bandas preferidas lá pelos idos anos 90. Sem vergonha e sem arrependimento. Consumi músicas da banda como um maníaco-obcessivo, com uma intensidade como se não fosse haver amanhã. "Hybrid Theory", "Meteora" ou "Minutes To Midnight" (apenas como exemplo) fazem parte da minha existência, como os meus pulmões, o meu fígado ou o meu coração.

Não vou fazer considerações acerca de cada música. Todas elas estão coladas à minha pele como tatuagens. É uma pequena coleção de 6, que podiam ser outras ou podiam ser mais...

In The End (Hybrid Theory, 2000)

It starts with
One thing, I don't know why
It doesn't even matter how hard you try
Keep that in mind
I designed this rhyme to explain in due time
All I know
Time is a valuable thing
Watch it fly by as the pendulum swings
Watch it count down to the end of the day
The clock ticks life away
It's so unreal
Didn't look out below
Watch the time go right out the window
Trying to hold on, but didn't even know
I wasted it all
just to watch you go
I kept everything inside
And even though I tried
It all fell apart
What it meant to me will eventually be a
memory of a time when

I tried so hard and got so far
But in the end, it doesn't even matter
I had to fall to lose it all
But in the end it doesn't even matter

One thing, I don't know why
It doesn't even matter how hard you try
Keep that in mind I designed this rhyme to remind myself how
I tried so hard
In spite of the way you were mocking me
Acting like I was part of your property
Remembering all the times you fought with me
I'm surprised it got so [far]
Things aren't the way they were before
You wouldn't even recognize me anymore
Not that you knew me back then
But it all comes back to me [in the end]
I kept everything inside
And even though I tried
It all fell apart
What it meant to me will eventually be a
memory of a time when

I tried so hard and got so far
But in the end, it doesn't even matter
I had to fall to lose it all
But in the end it doesn't even matter

I've put my trust in you
Pushed as far as I can go
for all this
There's only one thing you should know

I've put my trust in you
Pushed as far as I can go
for all this
There's only one thing you should know

I tried so hard and got so far
But in the end, it doesn't even matter
I had to fall to lose it all
But in the end it doesn't even matter

 Castle Of Glass (Living Things, 2012)

 Take me down to the river bend
Take me down to the fighting end
Wash the poison from off my skin
Then show me how to be whole again

Fly me up on a silver wing
Past the black, where the sirens sing
Warm me up in the nova's glow
And drop me down to the dream below

'Cause I'm only a crack
In this castle of glass
Hardly anything there for you to see
For you to see

Bring me home in a blinding dream
Through the secrets that I have seen
Wash the sorrow from off my skin
And show me how to be whole again

'Cause I'm only a crack
In this castle of glass
Hardly anything there for you to see
For you to see

'Cause I'm only a crack
In this castle of glass
Hardly anything else
I need to be

'Cause I'm only a crack
In this castle of glass
Hardly anything there for you to see
For you to see

Numb (Meteora, 2003)
 
I'm tired of being what you want me to be
Feeling so faithless, lost under the surface
I don't know what you're expecting of me
Put under the pressure
Of walking in your shoes
(Caught in the undertow, just caught in the undertow)
Every step that I take is another mistake to you
(Caught in the undertow, just caught in the undertow)

I've become so numb
I can't feel you there
Become so tired
So much more aware
I'm becoming this
All I want to do
Is be more like me
And be less like you

Can't you see that you're smothering me
Holding too tightly
Afraid to lose control
'Cause everything that you thought I would be
Has fallen apart right in front of you
(Caught in the undertow, just caught in the undertow)
Every step that I take is another mistake to you
(Caught in the undertow, just caught in the undertow)
And every second I waste is more than I can take

I've become so numb
I can't feel you there
Become so tired
So much more aware
I'm becoming this
All I want to do
Is be more like me
And be less like you

And I know
I may end up failing too
But I know
You were just like me
With someone disappointed in you

I've become so numb
I can't feel you there
I'm Become so tired
So much more aware
I'm becoming this
All I want to do
Is be more like me
And be less like you
I've become so numb I can't feel you there
(I'm tired of being what you want me to be)
 
Heavy feat. Kiiara (One More Light, 2017)
 
 I don't like my mind right now
Stacking up problems that are so unnecessary
Wish that I could slow things down
I wanna let go but there's comfort in the panic
And I drive myself crazy
Thinking everything's about me
Yeah I drive myself crazy
Cause I can't escape the gravity

I'm holding on
Why is everything so heavy
Holding on
So much more than I can carry
I keep dragging around what's bringing me down
If I just let go, I'd be set free
Holding on
Why is everything so heavy

You say that I'm paranoid
But I'm pretty sure the world is out to get me
It's not like I make the choice
To let my mind stay so fucking messy
I know I'm not the center of the universe
But you keep spinning round me just the same
I know I'm not the center of the universe
But you keep spinning round me just the same

I'm holding on
Why is everything so heavy
Holding on
So much more than I can carry
I keep dragging around what's bringing me down
If I just let go, I'd be set free
Holding on
Why is everything so heavy

I know I'm not the center of the universe
But you keep spinning round me just the same
I know I'm not the center of the universe
But you keep spinning round me just the same
And I drive myself crazy
Thinking everything's about me

I'm holding on
Why is everything so heavy
Holding on
So much more than I can carry
I keep dragging around what's bringing me down
If I just let go, I'd be set free
Holding on
Why is everything so heavy
 
Faint (Meteora, 2003)
 
I am
Little bit of loneliness
A little bit of disregard
A handful of complaints
But I can't help the fact
That everyone can see these scars
I am
What I want you to want
What I want you to feel
But it's like
No matter what I do
I can't convince you
To just believe this is real
So I let go
Watching you
Turn your back like you always do
Face away and pretend that I'm not
But I'll be here
Cause you're all that I got

I can't feel
The way I did before
Don't turn your back on me
I won't be ignored
Time won't heal
This damage anymore
Don't turn your back on me
I won't be ignored

I am
A little bit insecure
A little unconfident
Cause you don't understand
I do what I can
But sometimes I don't make sense
I am
What you never want to say
But I've never had a doubt
It's like no matter what I do
I can't convince you
For once just to hear me out
So I let go
Watching you
Turn your back like you always do
Face away and pretend that I'm not
But I'll be here
Cause you're all that I got

I can't feel
The way I did before
Don't turn your back on me
I won't be ignored
Time won't heal
This damage anymore
Don't turn your back on me
I won't be ignored

Now
Hear me out now
You're gonna listen to me
Like it or not right now (2x)

I can't feel
The way I did before
Don't turn your back on me
I won't be ignored
Time won't heal
This damage anymore
Don't turn your back on me
I won't be ignored

I can't feel
Don't turn your back on me
I won't be ignored
Time won't heal
Don't turn your back on me
I won't be ignored.
 
What I've Done (Minutes To Midnight, 2007)
 
In this farewell
There's no blood
There's no alibi
'Cause I've drawn regret
From the truth
Of a thousand lies
So let mercy come
And wash away

What I've done
I'll face myself
To cross out what I've become
Erase myself
And let go of what I've done

Put to rest
What you thought of me
While I clean this slate
With the hands
Of uncertainty
So let mercy come
And wash away

What I've done
I'll face myself
To cross out what I've become
Erase myself
And let go of what I've done

For what I've done
I'll start again
And whatever pain may come
Today this ends
I'm forgiving what I've done

I'll face myself
To cross out what I've become
Erase myself
And let go of what I've done

What I've done

Forgiving what I've done
 
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quarta-feira, julho 19, 2017

CHAMAR O ESPECTADOR

Cloud Atlas: CRÉDITOS COMPLETOS


Logo desde a estreia em 1996, com "Sem Limites" ("Bound") se percebeu que da cabeça das manas Wachowski não sairia nada de normal. Depois, em 1999, "Matrix" confirmou os piores receios: The Wachowski Brothers (Lilly e Lana Wachowski) estavam aí para arrasar o cinema convencional. A trilogia de Matrix acabou por tornar-se o paradigma do cinema de aventuras, o filme que todos os outros passaram a tentar imitar - o que, como quase sempre nas imitações, salvo raras exceções, dá no ridículo.


Entre 2003, o ano do último Matrix, e 2012, o ano deste "Cloud Atlas", as manas estiveram ocupadas com jogos de computador e alguns argumentos para filmes de terceiros, como "V de Vingança" de James McTeigue. Mas como aquelas cabecinhas não param, o interregno serviu para marinar um novo argumento de tal forma complexo, com uma tremendo emaranhado de personagens em tempos diferentes e em situações que, que repente, se cruzam na mais improvável das probabilidades.


Tudo tem um preço, parece ser a premissa de "Cloud Atlas". E o preço do espectador, por ter entrado no cinema, é ter de voltar atrás e começar tudo de novo, numa tentativa desesperada de por ordem nas ideias. O filme funciona como a escrita de Kant, por exemplo, em que o fim é apenas a compreensão de que o leitor não percebeu nada e o melhor é voltar ao principio para se organizar. A saída do labirinto esta em voltar a fazer o percurso todo de novo.


Numa contagem nada exaustiva, encontrei setenta e tal personagens - mas garanto que são muitos mais, talvez o dobro -, divididos por diferentes épocas, diferentes localizações, em mundos paralelos e em mundos reais. De tal forma que, ou se vão encontrar algures, ou cometem, cometeram ou hão-de cometer, acções que interferem e influenciam todos e cada um, incluindo a si próprios - noutro mundo ou noutra dimensão!...


Como devem perceber, não vale a pena tentar resumir o argumento. Há o diário de um viajante, há cartas de um música para o amante, há uma conspiração nuclear, há uma tribo pós-apocaliptica... E, acima de tudo, há uma espécie de "efeito borboleta", de tal forma que ninguém é inocente aqui, pelo que se passa ali, ou além. Mesmo que cada um seja estranho ao seu vizinho, o destino está tão ligado aos desconhecidos, que os conhecidos são cartas fora do baralho nas mãos das três tecedeiras Moiras.


Para dar corpo - e alma - a esta fantasia, as irmãs Wachowski foram buscar um elenco digno do Olimpo, cada um deles devidamente envolvido em diversos personagens: Tom Hanks, Halle Berry, Jim Sturgess, Susan Saradon, Hugh Grant... Uns com aparições (aparentemente) menores, mas, como já vimos, todos de importância vital para o longo manto que as Parcas tecem, quer para os deuses, quer para os humanos. Nada é obra do acaso.


"Cloud Atlas" tem um excelente trabalho de filmografia e de imagem, e é emocional e intelectualmente envolvente. O espectador está constantemente a ser chamado - puxado? obrigado? - a tentar identificar o ator por trás da máscara - em personagens que vão da Europa à Ásia, do passado ao futuro, até de homem a mulher.


"Esmagador" foi a primeira palavra que me veio à cabeça depois de ver "Cloud Atlas", pelo menos enquanto a minha cabeça rodopiava a tentar encontrar um ponto de apoio, mas depois lembrei-me também de "impressionante". E referia-me principalmente à capacidade das irmãs Wachowski de criarem histórias fantásticas, neste caso especifico com a ajuda de Tom Tykwer e a partir de um livro de David Mitchell - que não conheço, mas que vinha rotulado como impossível de filmar! "Impossível" é, portanto, a palavra definitiva para esta produção internacional, mas que, no fim, tem um enorme sentido de unidade no seu todo.

sexta-feira, julho 14, 2017

PELA ESTRADA FORA


"Três anéis para os Reis Elfos debaixo do céu,
Sete para os Senhores dos Anões nos seus palácios de pedra,
Nove para os Homens Mortais condenados a morrer,
Um para o Senhor das Trevas no seu negro trono
Na Terra de Mordor onde moram as Sombras.
Um anel para a todos dominar, um anel para os encontrar,
Um anel para a todos prender e nas trevas os reter
Na Terra de Mordor onde moram as Sombras."

CRÉDITOS COMPLETOS: "A Irmandade do Anel", "As Duas Torres", "O Regresso do Rei"


 Conheci o Frodo teria os meus 16 ou 17 anos, devido a uma banda de rock-progressivo (ou "sinfónico", como quiserem) chamada Tantra, cujo vocalista adotou o alter-ego artístico do personagem de Tolkien. A minha leitura da trilogia não envolveu quaisquer metáforas sobre o nazismo, limitei-me a sair disparado da primeira página do primeiro volume, só tendo parado na última página do último volume. Voltei a pegar nos livros por volta de 2000, quando Peter Jackson (quem?!...), o mais improvável dos realizadores, pegou na aventura para fazer um filme.


Há uma enorme diferença entre ler um livro com 17 anos e repeti-lo com 40. Mesmo antes de ver o primeiro episódio da saga, percebi que Jackson ia ter um problema: os personagens, os locais, eram demasiado fictícios para poderem ser retratados de forma eficiente e credível no ecrã.  Demasiados pormenores eram deixados à imaginação do leitor: a beleza de Liv Tyler, apenas como exemplo, está longe de corresponder às minhas fantasias indescritíveis sobre a princesa Arwen. No entanto, esse foi o primeiro trunfo que Peter Jackson (quem?!...) jogou de forma eficiente: apesar de tudo, existe um elevado consenso entre os novos e os antigos leitores, que as paisagens, os heróis, os ambientes, podiam muito bem ser aquilo que tinham imaginado durante a leitura.


O segundo trunfo de Jackson, foi a escolha dos parceiros na escrita do argumento: Fran Walsh e Philippa Boyers, com quem já tinha trabalhado na história do dramático "Visto do Céu", puseram-se a limar as arestas das quase duas mil páginas da obra de J. R. Tolkien, que estava repleta de episódios intermédios que teriam de ser atirados para o lixo. O que é realmente fundamental e o que é acessório? O que pode ser retirado sem afetar a narrativa central e o que tem mesmo de ficar incólume? No final, com maior o menor desacordo, a linha condutora da aventura ficou intacta nos três episódios da saga.


E agora, o filme propriamente dito. O que esperar de uma aventura começada a escrever nos anos 30, acabada no final dos anos 40 e editada pela primeira vez a meio dos anos 50? O que esperar duma película baseada nessa obra, dividida em 3 episódios, em que o capitulo final fará 15 anos no ano que vem? É que, pensando bem, os efeitos especiais da atualidade, quase fazem com que um troll animado há um quarto de século, pareça pouco mais que um boneco do inicio da Disney!


Esse foi, afinal, o terceiro trunfo jogado por Peter Jackson: não fazer mais do que era possível, de forma a que a credibilidade se sobrepusesse à espetacularidade. Os efeitos especiais conseguem mais e melhor hoje em dia, é verdade, mas os bonecos de "O Senhor dos Aneis" são atuais à sua maneira, não se tornaram mais ridículos que que eram à época da estreia e, sejamos claros, nessa altura não o eram muito. Afinal, quem quiser hoje saborear o filme, vai encontrar exatamente o mesmo que encontraram os espetadoras na estreia: a mais épica aventura do bem contra o mal. Nada mais nem nada menos. E para que não haja confusão, os bons são bonitos e bem comportados, dizem coisas como "há sempre esperança" mesmo nas situações mais dramáticas, e os outros são feios, porcos e maus, mesmo maus até ao tutano.


A história de "O Senhor dos Aneis" é sobejamente conhecida. Embora J. R. Tolkian a tenha escrito como um só volume, por razões editoriais foi dividida em três: "A Irmandade do Anel", "As Duas Torres" e "O Regresso do Rei". Peter Jackson decidiu seguir a lógica da trilogia e realizou uma saga dividida em três capítulos, estreados em 2001, 2002 e 2003, cada um com um sucesso superior ao antecedente. De tal forma, que só quando ficou completa a obra pareceu começar a atrair as atenções para o projeto completo. O último episódio tem mais de 190 prémios espalhados pelo mundo, incluindo 11 Óscars, onde estão "melhor filme" e "melhor realizador".



Sauron, o senhor das trevas, distribuiu por todas as raças - Elfos, os eternos, homens, os mortais ambiciosos, e anões, os gananciosos mineiros - 19 anéis, que certamente os conduziriam à perdição. Nessa perspectiva, criou um vigésimo anel, forjado na lava da própria montanha do mal, que acabaria por dominar todos os outros. É esse último anel que terá de ser destruído nas entranhas de Mordor, a morada de todo o terror, guardada for exércitos de gigantes trolls e assassinos orcs. Essa tarefa titânica acaba por ficar a cargo de um pequeno Hobbit, Frodo (Elijah Wood), que inicia uma viagem cujo regresso não é garantido, saindo da sua pequena terra, o Shire, para aniquilar o objeto da maldição, encetando uma aventura onde se vão cruzar os mais diversos personagens fantásticos: Elfos e Anões - inimigos figadais -, mágicos, reis e belas princesas, horrorosos monstros e Urks implacáveis.


Esta história simples serviu para J. R. Tolkien realçar o melhor e o pior da humanidade: o amor e o ódio, a generosidade e a ganância, a coragem e a amizade contra a opressão. Eu sou um fanático de "O Senhor dos Aneis", como era do livro - ou dos livros, como quiserem -, assisti a todas as estreias na época e entre essa data e hoje já repeti a saga de enfiada 3 vezes. Não é de esperar um profundo debate filosófico sobre estes filmes, que no fundo não passam de uma jornada fantástica, talvez um dos melhores filmes de aventuras e de guerra de todos os tempos.


A trilogia de "O Senhor dos Anéis" dura cerca de 6 horas e (quase) não tem tempos mortos, não aborrece nem por um segundo. Está sempre a acontecer qualquer coisa, os nossos heróis enfrentam constantemente situações que os colocam em perigo, sem que isso crie o que se possa chamar de verdadeiro suspense. Tudo é delineado ao sabor do puro entretenimento e é para isso que foi feito. Como todas as histórias de "bons e maus", os bons ganham e os maus perdem, como tem de ser para o Universo funcionar na perfeição, para cada peça encaixar no seu lugar que lhe pertence - tal como acreditavam os gregos antigos, antes de saber que o Kosmos é caótico e infinito.



O último episódio da saga vai fazer 15 anos em 2018 e a trilogia vale hoje exatamente o que valia quando estreou: uma aventura clássica sobre um grupo de pessoas que, para fazer o bem, tem de enfrentar o poder das forças do mal. Dito assim, pode fazer lembrar alguns filmes de cow-boys de John Ford ou a saga da Guerra das Estrelas. É verdade, Hollywood não renuncia às suas raízes. Às vezes, algumas obras querem fazer parecer o que não são. Neste caso, Peter Jackson não caiu nessa asneira. O que há, é o que está à vista: porrada bem feita, da melhor, durante 6 horas sem parar. Vamos a eles!

quinta-feira, julho 06, 2017

SEXO DE LUXO

CRÉDITOS COMPLETOS


"Sexdoll" (ou "Amoureux Solitaires"), a última aventura da realizadora e argumentista Sylvie Verheyde, corre o risco de ir para o baú dos esquecidos, o que será uma tremenda injustiça para uma obra intensa, bem filmada, bem interpretada, mas que fica numa "terra de ninguém" entre um documentário sobre o tráfico humano, um policial e um romance. No fundo, é tudo isso. De forma consistente e sem preconceitos de ser classificado em qualquer gaveta.


A bela Hafsia Herzi interpreta Virgine, uma prostituta escravizada por uma rede de trafico humano, que em certa altura se cruza com Rupert (Ash Stymest). Entre ambos vai nascer a história habitual do rapaz conhece rapariga, mas sem nada dos contornos habituais. Na verdade o filme é muito mais uma "boneca russa" que uma "boneca sexual", já que a ação se vai tirando unidade a unidade, como descascar uma cebola camada a camada.


A intriga policial é mais pressentida que óbvia e a tensão nasce muito mais do que poderá acontecer do que acontece realmente. Nesse aspeto, Sylvie concentra-se principalmente na relação entre os personagens principais. A intensidade resulta da situação envolvente e conforme o filme vai avançando, há cada vez menos thriller e cada vez mais romance.


"Sexdoll" não quer incomodar ninguém. Não explora o lado sexual da prostituição, não tem nus desnecessários nem dramas lamechas sobre as coitadas das prostitutas. Nesse aspeto vai-se esvaziado como um balão ao longo da hora e meia, podendo deixar aquela sensação estranha no espetador que, devido ao título, ia à espera de mais carne exposta. Oohh... Afinal, é apenas um romance!...



É precisamente quando deixamos de lado a possibilidade de ser um thriller, que também pode ser, mas sem muita convicção, e assumimos a única possibilidade de ser mais um romance, uma simples história de amor, que o filme ganha uma nova dimensão. Enquanto drama romântico, "Sexdoll" é original; basta apenas que o espetador compreenda que as espetativas não passavam de fantasias suas, privadas, às quais o filme é realmente alheio.


Este filme não tem uma intenção moral, não quer expor a degradação do tráfico de mulheres, não tem pena das prostitutas, embora tudo isso possa estar nas entrelinhas do título. "Sexdoll" é um romance tenso entre uma rapariga e um rapaz - que tanto pode ser a sua salvação como a sua perdição. Olhado nessa perspetiva simples, é uma excelente, credível e bem construída tarde de cinema. Sem arrependimentos.

quinta-feira, junho 29, 2017

MACACOS, SOMOS TODOS!

KONG: ILHA DA CAVEIRA - Créditos completos

Com exceção da simpática chimpanzé Chita, que acompanha Tarzan, o gorila King Kong deve ser o mais famoso macaco de Hollywood, sendo dono e senhor de uma coleção de filmes que começou em 1933 com o original de Merian C. Cooper e Ernest Schoedsack, protagonizado pela formosa Fay Wray, objeto da paixão do gigante primata. A última tentativa que me recordo, para já, foi o "King Kong" de Peter Jackson, que não tendo onde gastar o dinheiro que "O Senhor dos Anéis" lhe deu a ganhar, decidiu esbanjar uns dólares num remake espalhafatoso, mas vulgar.


Uma lista proposta pelo site IMDb contém 18 filmes acerca do gorila King Kong, mas não garanto que esteja exaustivamente completa. Está lá este "Kong: Skull Island", que, para já, é o que nos interessa aqui. E a pergunta que toda a gente se coloca é: vale a pena perder tempo com mais um gorila gigante, mesmo considerando que a evolução dos efeitos especiais entre 1933 e 2017, nos pode proporcionar macacos mais convincentes?


Quase todos os argumentos dos variados King Kong começam da mesma maneira: um grupo de cientistas explora uma ilha perdida. Depois a aventura vai variando de ponto de vista, conforme cada realizador quer dar um certo cunho original à "sua" história - os cientistas de Jackson foram transformados numa equipa de cineastas, por exemplo -, mas no fundo - e nem é preciso ir muito "fundo"! - todos os filmes são iguais e acerca da mesma coisa: um gorila gigante que se apaixona por uma bela donzela, que por um motivo ou outro, anda perdida no meio do grupo.


Este "Kong: Skull Island" começa com as premissas do costume: cientistas falidos à procura de dinheiro para uma expedição a uma ilha desconhecida no Pacifico. Mete militares em comissão no Vietnam, na época em que Nixon decidiu acabar com a guerra. Combatentes deprimidos por já não haver inimigos em quem descarregar tiros. É o ponto de vista "original" de Dan Gilro, Max Borenstein, Derek Connolly e John Gatins, os argumentistas desta versão realizada por Jordan Vogt-Roberts, um ilustre desconhecido que tem no currículo uma série de curtas e episódios para a TV.
 
  

A primeira impressão é que a nossa estadia no cinema não vai correr nada bem, isto apesar da presença de atores consagrados como Samuel L. Jackson ou John Goodman - de quem eu gosto particularmente. É verdade. "Kong: Skull Island" é mais um subproduto de Hollywood, embrulhado em efeitos especiais de primeira água, mas sem recheio que lhe dê algum sabor. É um "tiro neles" vulgar, em que o inimigo é o gorila gigante mais famoso do cinema. Nada mais.






Vogt-Roberts consegue imprimir um ritmo interessante ao filme e isso vai mantendo o espetador colado ao ecrã. O filme quase não tem tempos mortos, o que não deixa de ser um ponto a favor, mas também não tem nada mais. É uma sucessão de vulgaridades, entre tiros e pancadaria. Se não tiverem nada para fazer, esta hora e meia não vai aborrecer, mas para os mais exigentes, também não vai acrescentar seja o que for; não é uma película que irão recordar para contar aos netos.

Com muitos planos que metem helicópteros e por-do-sol, muitos irão ter pequenas visões da famosa cena de "Apocalypse Now", sem Wagner mas com Black Sabbath. Até um dos personagens se chama Conrad (Tom Hiddleston), quase a fazer lembrar o autor de "Coração das Trevas". Só que em vez de entusiasmar, esta comparação só serve para destroçar ainda mais o coração dos cinéfilos mais exigentes.



segunda-feira, junho 19, 2017

O FUTURO É HOJE

CRÉDITOS COMPLETOS

Mateo Gil é co-argumentista de "Abre Los Ojos" - o original do qual "Vanilla Sky" é uma pálida imagem -, um dos mais fantásticos romances que nos pode ser dado assistir. Este "Realive" (ou "Proyecto Lázaru") vai buscar muito do fascínio do primeiro, na forma como explora a angústia da vida humana, frágil e dramática, mas acrescenta-lhe a própria direção de Mateo, tão seguro atrás das câmaras como na escrita de histórias.


Talvez este "Realive" tenha mais a ver com "Mar Adentro" (outro co-argumento de Mateo Gil), no sentido em que procura projetar a vida para além das possibilidades físicas do corpo, quer dizer, existe realmente um espírito que pode permanecer vivo, depois da degradação material da carne? Ao contrário do Ramón Sampedro de "Mar Adentro", este Marc Jarvis (Tom Hughes) quer, pelo contrário, prolongar a vida além da morte, o que - à primeira vista, e só à primeira vista - o coloca nos antípodas do paraplégico Ramón, que se quer suicidar.

A história do filme pode ser resumida com facilidade: depois de ser diagnosticado com uma doença grave, Marc Jarvis decide congelar-se para num futuro, próximo ou não, poder ser reanimado numa época em que haja cura para o seu mal. Para trás fica a grande paixão da sua vida, Naomi (Oona Chaplin), que sem ninguém o suspeitar, toma uma importante decisão.


Dito assim, parece um enorme dejà vu e até pode afastar alguns espetadores mais desconfiados. Mas a realidade é que o filme apresenta-nos um drama que ultrapassa em muito o cliché do "viver para sempre", ideia que desaparecerá muito depressa da cabeça de alguns, depois de assistirem a "Realive". Quem quer viver para sempre? Ou, dito de outra forma, a eternidade valerá realmente a pena, se as memórias nos colocarem exatamente no momento em que já não podemos estar nunca mais?


Mateo Gil é um argumentista dum talento ímpar, e até pode ser que a sua realização não consiga captar a profundidade da história. Talvez... Mas a verdade é que "Realive" deve ser um dos melhores filmes de ficção científica ou um dos melhores romances - cada um que decida por si -, dos últimos tempos. Uma viagem entre um laboratório que é uma obra-prima da ciência médica de 2084 e uma casa à beira mar (o filme não indica onde, mas pode ser qualquer cidade costeira, tipo Los Angeles) de 2015.


"Realive" pode partir de uma premissa simples: em principio, todos nós desejaríamos viver para sempre. No entanto, desconstrói o problema da eternidade de tal forma, levando o desespero duma existência sem momentos concretos ao limite do insuportável. No final, os espetadores mais atentos, ou mais sensíveis a estes problemas do "tempo" e da "morte", vão agradecer por a vida ser efémera e a eternidade ser impossível.


Este filme não tem momentos de suspense tradicionais, não tem aventuras amorosas tal como as entendemos no cinema habitual. É apenas a história de um personagem que rejeita a imortalidade, que pensou desejar antes de a possuir. Tão simples quanto isso. E não é preciso nada mais, para fazer um drama interessante, uma história de vai prender a plateia ao ecrã até ao fim.