terça-feira, agosto 29, 2017

O PONTO DE VISTA DE UMA LEICA

O Sentido do Fim: CRÉDITOS COMPLETOS


A Leica III é considerada, por muitos fotógrafos, a melhor máquina fotográfica de sempre. O objecto visto através de uma lente é uma excelente metáfora para este "The Sense of an Ending", um filme que fala precisamente da forma como olhamos para o exterior de nós e de como o tempo pode afectar o nosso próprio ponto de vista sobre nós mesmos, sobre os acontecimentos que nos afectaram e as pessoas que interagiram connosco.


Tony Webster (Jim Broadbent e Billy Howle), reformado de uma profissão indefinida e, aparentemente como passatempo, possuidor de uma loja de máquinas fotográficas em segunda mão, recebe um dia uma carta a informá-lo que é herdeiro do diário da mãe da sua ex-namorada de faculdade, Veronica (Charlotte Rampling e Freya Mavor). Um excelente ponto de partida para uma viagem ao passado, reformulando toda a perspectiva do presente.


Ritesh Batra - o génio que em 2013 já nos tinha oferecido o imperdível "A Lancheira" - filma este "The Sense of an Ending" com a sensibilidade necessária para manter os excelentes actores no local certo para representarem os personagens ao qual estão dedicados. E, sejamos claros, entre a actualidade e os flash-backs, entre filha, esposa e ex-esposa, namorada e secundários, circulam aqui mais de 20 identidades, cuja encruzilhada se precipita para o próprio Tony.


Não se pense que Ritesh Batra se deixa enredar num novelo confuso. Pelo contrário! Todo o caminho é percorrido com uma segurança exemplar, não deixando, por si, de requerer alguma atenção do espectador, que tem de se manter concentrado para seguir o percurso sem se perder. Ninguém aqui tem um papel passivo, todos têm o seu próprio ponto de vista, como se cada um tivesse a sua Leica III, através da qual vai observado o objecto a fixar.


"The Sense of an Ending" é mais sólido que atractivo, um belo e bem representado filme sobre as fraquezas e os dramas do passado e de como se cruzam no presente, alterando o foco da lente de tal forma que o protagonista das acções perde o sentido do enquadramento, mesmo quando o objecto principal é ele próprio. De repente, Webster está entre o nascimento do neto e o regresso da sua paixão da faculdade, sentindo-se perdido no seu próprio papel.


O que Ritesh Batra parece querer filmar é muito menos o fim e muito mais o caminho até lá. Isso acaba por deixar o espectador num vazio estranho quando o filme acaba. Mas o conjunto é um belo exemplar de como fazer cinema sem pressas, baseado numa história interessante e num conjunto de actores excelentes dirigidos com mão segura. Um desafio desconcertante ao poder da memória na influência do nosso ponto de vista para o presente.

quarta-feira, agosto 23, 2017

O SENTIDO DA VIDA É O BEIJO DE UM VAMPIRO

CRÉDITOS COMPLETOS
 

"The Transfiguration" corre o risco de não agradar a gregos e troianos, o que é uma pena porque é um daqueles filmes obrigatórios para os amantes de cinema com significado. Se é verdade que George A. Romero e os seus "horror-movies" estão presentes em referências directas e indirectas, também é verdade que esta é tudo menos uma história de terror, muito menos de vampiros.


Agredido pelos vizinhos e negligenciado pela família, o adolescente Milo (Eric Ruffin) gosta de filmes de vampiros. Um dia conhece Sophie (Chloe Levigne), mais velha mas nem por isso menos conturbada. Ele é mais sanguinário, prefere "Martin" de George A. Romero, ela é mais romântica, prefere "Twilight" a obra de Stephenie Meyer. Os espectadores vão ficar confusos: uns dirão que, para vampiros, tem muito romance; outros dirão que, para romance, tem muito sangue.



A verdade é que, em minha opinião, nem uns nem outros têm razão. O vampirismo e o romance são apenas a caixa onde se guarda uma profunda reflexão sobre o drama da adolescência, sobre a solidão humana, sobre como duas almas perdidas procuram desesperadamente um tronco flutuante na tempestade da vida, de forma a não se afogarem no turbilhão das águas revoltas da existência.


"The Transfiguration" tem sangue suficiente para poder ser considerado um filme de terror - ou, se quiserem, de horror -, mas isso funciona apenas como a sombra do Lucky Lucke, que vai mais lenta que o corpo que a projecta. É um filme arrastado para um banho de sangue, como Milo, apenas como um acto de auto-mutilação, como Sophie.
 

Só para acabar, em modo de aviso à navegação: esta é uma obra contemplativa, sem diálogos a mais e sem cenas que não façam sentido; os personagens não perdem tempo a dizer coisas que não tenham significado e a realização não perde tempo com acontecimentos que não encaixem no todo. É por isso que, no fim, o espectador se sente um grão poeira no drama a que assistiu. Provavelmente, para a maioria, nada mais será como dantes...

domingo, agosto 20, 2017

NEM MAIS, NEM MENOS

CRÉDITOS COMPLETOS


"Inconceivable" é um daqueles filmes que não oferece nem mais  nem menos do que aquilo que promete, desde a capa ao último fotograma: um thriller honesto, filmado de forma honesta, representado por actores honestos. A história pode parecer um dejá vu - e é, em certo sentido -, mas todo o produto final vem embrulhado numa competência que não desilude o espectador, se este for devidamente prevenido acerca do que vai encontrar.


Para fugir do seu passado, Katie (Nicky Whelan) muda de cidade, onde cria uma relação de amizade com o casal Brian (Nicholas Cage - em minha opinião, um actor excelente mas incompreendido) e Angela (Gina Gershon), de quem se torna baby-sitter. A partir desta premissa simples e directa, Jonathan Baker realiza um filme simples e directo, com momentos de suspense simples e directos. Um thriller certamente interessante, considerando que cada um faz o seu papel e todos o fazem bem feito.


O facto de nada estar a mais e nada estar a menos, podia perfeitamente ser o ponto de partida para qualquer coisa nova, mas o argumento de Chloe King não deixa muitas pistas para que Jonathan Baker se ponha a inventar. As coisas são o que são e "Inconceivable" é precisamente o que é. Se ninguém vai ficar desapontado, também é verdade que ninguém vai ficar surpreendido.


Aqui está um daqueles filmes do qual não se pode dizer mal porque é bem feito, mas também não se pode dizer bem, porque não passa nem um milímetro do risco. Talvez entusiasme os amantes de thrillers, que gostam de sustos e reviravoltas finais, mas mesmo esses, penso eu, têm muito mais e melhor com que se entreter. Aqui vão apenas passar o tempo.



"Inconceivable" contém pelo menos duas estreias em produções hollywoodescas: a realização de Jonathan Baker e a actuação de Nicky Whelan. Se a segunda não desilude (antes pelo contrário, compõe uma excelente Katie), o primeiro vai precisar de mais atrevimento, mais "punch" - como diz um amigo meu -, para criar ideias próprias. A honestidade, só por si, pode não ser um trunfo na selva do cinema.

sábado, agosto 12, 2017

UMA REVISTA PARA ADOLESCENTES

A 5ª Vaga: CRÉDITOS COMPLETOS
 

Eu adoro catástrofes, fins do mundo, aliens devoradores e toda a espécie de ameaças que a humanidade teme. Adoro viver a exterminação da espécie "homem" da face do planeta e a sala de cinema é o melhor lugar do mundo para o fazer, agarrado a um pacote de pipocas como se fosse o último salva vidas, qual astronauta Ripley na sua última nave salvadora em "o oitavo passageiro".


Foi essa a razão principal porque peguei neste "The 5th Wave"; foi isso e o facto de me ter apaixonado por Chloë Grace Moretz em "Se Eu Ficar", de que já falei aqui. Talvez por isso, a desilusão com esta produção seja maior. Embrulhado num ataque extraterrestre, vem um medíocre romance adolescente, tão mediocre que ao fim de 20 minutos - minimamente interessantes, mas não elevem muito as expectativas - mais parece que estamos a folhear uma daquelas revistas para adolescentes e, ao mesmo tempo, a furar o cérebro com uma chave de fendas.


Li algures que "The 5th Wave" é como um remake de "Twilight", só que trocando os vampiros e os lobisomens por aliens. Não é verdade. A saga de Bella e Edward - com todos os defeitos que possui, e conforme os episódios vão avançando, tem cada vez mais defeitos que qualidades, todos sabemos -, a saga, dizia eu, criou uma moda, (re)inventou o velho, fazendo-o parecer novo. Este filme, pelo contrário, é uma lixeira de plástico onde vagueia uma equipa de Hollywood, que não tem nada pior onde ocupar os dias.


Cassie (Chloë Grace Moretz) tenta sobreviver num mundo ameaçado por uma raça extraterrestre a que chamam "Os Outros" - como???!!! -, enquanto procura o seu irmão mais novo no meio do caos em que se transformou a vida no planeta. Pelo caminho, encontra um jovem atraente e simpático, em quem não sabe se pode confiar. Para os amantes do Apocalipse, durante cerca de 20 ou 30 minutos ainda há esperança. Mas depressa ela se perde num mar de vulgaridades, quer enquanto romance adolescente, quer enquanto ficção cientifica - se é que a definição se pode aplicar aqui.


O filme tem alguns efeitos especiais interessantes - o que é um lugar comum no cinema acerca do fim do mundo -, tem tiros e explosões, correrias e tudo o que pode servir para entusiasmar o espetador. Mas nada consegue salvar a história, a interpretação, a realização, a edição... Enfim, se alguma coisa pode ser salva aqui, são as pessoas que devem fugir do cinema tão depressa quanto puderem. E quem vos avisa, vosso amigo é!

sexta-feira, agosto 11, 2017

LÁ, ONDE ATÉ O SILÊNCIO DÓI

CRÉDITOS COMPLETOS

Poucos realizadores conseguem captar o país profundo com a intensidade que ele merece. Dois filmes vieram-me à memória durante este "The Levelling": "Despojos de Inverno", de Debra Granik, e "Vale Abraão" de Manoel de Oliveira, mas podiam se alguns outros. Cada um à sua maneira, contam histórias de pessoas e lugares onde não há histórias. Filmes de tal dimensão, onde até os silêncios fazem doer.


"The Levelling" é a estreia da realizadora e argumentista Hope Dickson Leach nas longas metragens. É uma história da Inglaterra rural, da relação entre pai (David Troughton) e filha (Ellie Kendrick) e de como uma morte obriga a segunda a regressar à terra natal, enfrentando o primeiro, que odeia. Enquanto vai percebendo o que sucedeu ao irmão (Joe Blackmore), Clover tem de refazer as relações conturbadas com o progenitor.


A morte é a grande niveladora do drama da veterinária Clover. O filme começa com alguém a dizer-lhe do sucedido e perguntando "posso ajudar nalguma coisa?". Ao que a jovem responde "pode fazer com que seja o meu pai em vez do meu irmão?". Estão lançados os dados para duas horas dum drama de tal intensidade, que o espetador quase nem consegue respirar. Não se pense em grandes aventuras. "The Levelling" tem tudo menos velocidade, apesar de espingardas e tiros estarem de certa forma presentes na ação. Este é um filme que se quer saboreado devagar, com lentidão, onde até as festas no cão demoram o tempo real, tão real como a vida no campo.


Hope Dickson Leach filma cada fotograma com tal paixão, que cada milímetro de fita pode ser transformado numa canção de amor ou de raiva, depende do ponto de vista. Os atores não representam apenas, incluindo os mais secundários, transformam-se no próprio personagem em cada instante e isso transforma o filme num hino dramático, tão contundente como um murro no estômago.


Não importa o que a Academia vai dizer em Março do próximo ano. Pode-se já antecipar, que estamos na presença de um dos melhores filmes ingleses do ano, seja qual for o reconhecimento público e oficial que mereça. Sob a direção de Dickson Leach, um grupo de atores exemplares dá-nos um vislumbre sobre a infelicidade, a morte e a redenção, numa quinta rural da Inglaterra que ninguém quer ver, ou que ninguém sabe ver.

AGRADAVELMENTE SIMPLÓRIO

CRÉDITOS COMPLETOS
 
Todos os motivos são bons para um romance, mesmo que seja a mais que batida paixão entre um nazi e uma judia, mesmo que seja uma história de espionagem disfarçada de história de amor, mesmo que seja uma mistura entre tudo isto. "The Exception" vai buscar pequenas coisas a todo o lado e constrói um filme que tanto faz que seja visto ou não.


Esta é a primeira incursão de David Leveaux nas longas metragens de cinema e, talvez por isso, parece sofrer de alguma timidez, que se acaba por refletir nas indecisões de "The Exception". O romance é pouco intenso, a aventura de espiões tem pouco suspense, o problema da dualidade nazis-judeus tem pouco drama. Salva-se a performance de Christopher Plummer no papel de Kaiser Wilhelm III, razão pela qual toda a trama se inicia.


O Capitão Brandt (Jai Courtney) é encarregado da guarda pessoal do ex-Rei da Alemanha, exilado na Holanda depois da derrota na Primeira Guerra Mundial. É nessa missão que conhece Mieke (Lily James), uma criada judia a servir na mansão do rei. Só que a defesa da vida do rei acaba por revelar-se uma aventura transformadora na vida da pequena comunidade onde habitam investigadores da SS à procura dum espião inglês ou leais seguidores do monarca.


Entre tantos motivos de interesse, o filme acaba por perder-se numa teia de motivos nenhuns. Sem nunca encontrar o Norte, Leveaux agarra-se à bússola da simplicidade, escorregando algures para o simplório. O filme não aquece nem arrefece, mas socorre-se de uma série de truques para se ir mantendo à tona do aceitável. O espetador nunca se perde, nunca se assusta, nunca se surpreende, no final vai para casa em paz e sossego como se não tivesse acontecido nada.


Se é verdade que não aborrece, que David Leveaux não estica a história nem mais um segundo que o aceitável, também é verdade que não há sumo, por muito espremido que seja. É apenas um filme feito de forma profissional, por atores profissionais e filmado por uma equipa profissional. Tudo polidamente agradável, mas sem chama. E esta história tinha pano para mangas, nas mãos de gente mais atrevida!

segunda-feira, julho 31, 2017

ASSOCIAÇÃO DE IDEIAS


Um Dia: CRÉDITOS COMPLETOS

Há uma coisa de que não posso acusar Lone Scherfig: é de me enganar. Através daquela associação aleatória do IMdB, fui levado de "Heróis da Nação" para "Uma Outra Educação" e para este "One Day" e em todos os filmes Scherfig parece cometer os mesmos erros, enquanto, ao mesmo tempo, reafirma a mesma competência e a mesma sensibilidade maravilhosa. Tem à sua disposição histórias fantásticas, atores fantásticos, técnicos fantásticos, mas depois acaba sempre por ficar num meio-termo que parece aquém das possibilidades. Este "One Day" não foge à regra!


Embora o motivo central da tal realação do IMdB fosse a realizadora, o que realmente me fez pegar nos DVD's foram razões diferentes. Neste filme em particular, foi Anne Hathaway, de quem eu gosto genericamente, principalmente desde que me apaixonei pela Brand de "Interstellar". Gosto do à vontade, das expressões, do humor; gosto, pronto!


Eu não conheço o livro de David Nichols a partir de onde o próprio autor escreveu o argumento deste filme, mas a história deste romance é simples por natureza: Emma (Anne Hathaway) e Dexter (Jim Sturgess) são amigos da faculdade e têm a tradição de se encontrar no mesmo dia, 15 de Julho, embora esse encontro possa não ser presencial. O resto parece previsível, ao fim de hora e meia de filme...


Porque é que nos fascina um filme que, desde os primeiros 15 minutos, já sabemos como vai acabar? Como nos pode interessar a sequência de peripécias que irão culminar nos inevitáveis beijinhos e abraços, de prelúdio do habitual felizes para sempre? São estas as perguntas que os espetadores irão fazer, mas ficarão ligados ao ecrã mesmo assim, porque "One Day" tem  ritmo, tem humor e drama, é divertido e triste. E isso é tudo para um romance.


O filme tem armadilhas pelo caminho, de forma a não deixar ninguém verdadeiramente sossegado. Pela estrada fora, aparentemente calma e previsível, os espetadores terão sobressaltos com pedras durante o passeio. Isso não altera o todo romântico, mas altera o estado de espírito descontraído e até paternalista da plateia. Ás vezes, nem tudo o que parece é ou, dito doutra maneira, o que é pode sê-lo de diversas formas, dependendo da perspectiva como se olha.


Quem seguiu o meu percurso atrás de Lone Scherfig, ficará a pensar que eu posso ter alguma coisa contra a senhora. Falei de três filmes e, em todos eles, nunca fiquei completamente rendido. Escorreguei algures, sem nunca ter realmente caído.  Vamos esclarecer: eu gosto deste filme. Gostei também de "Heróis da Nação" e de "Uma Outra Educação". Só que fiquei também sempre um pouco desiludido. Tanto potencial e, afinal, o produto final fica sempre longe da meta que seria possível alcançar!


Os cinéfilos que gostam de cinema temático, tem aqui uma oportunidade de ver três belos filmes, tendo como ligação central a realizadora Lone Scherfig. Todos eles representam o que de melhor tem a filmografia inglesa: atores de excelência, cenografia irrepreensível, cuidadosa escolha de argumentos, direção competente. Quanto ao resto, cada um tirará a sua conclusão. Eu aceito, com gosto, todas as teses diferentes da minha.





domingo, julho 30, 2017

VULGARIDADES DA SEDUÇÃO


O Circulo: CRÉDITOS COMPLETOS

Nestas crónicas cinéfilas, já toda a gente percebeu a minha admiração incondicional por Tom Hanks, mesmo nos mais pequenos papeis ou nos filmes menos conseguidos. Agora, juntem a isso Emma Watson - a menina que cresceu como Hermione, a disfarçada e secreta apaixonada de Harry Potter, mas que já nos brindou em "As Vantagens de ser Invisível", "Noé", "Regressão" ou  "A Minha Semana com Marilyn".



Este "The Circle" é, logo à partida, o cruzamento de um senhor ator com uma menina atriz, mas não se fica por aí. James Ponsoldt já me tinha oferecido o muito vulgar romance "Aqui e Agora" e aguçou-me a curiosidade por se aventurar nos mistérios do policial e da ficção científica. E a verdade é que, não fazendo nada de novo, também não se sai muito mal, considerando as experiências anteriores.


No fundo, no fundo, "The Circle" não trás nada de novo a outras teorias da conspiração, mas com a intenção de explorar novos horizontes, podemos deixar escapar as coisas mais simples que se apresentam ao nossos olhos. Este é um filme simples, feito com competência, com ritmo e com drama. O que é que se pode pedir mais?


Mae (Emma Watson) começa a trabalhar numa firma onde vai subindo hierarquicamente, devido a uma combinação de sorte e acaso, acabando por se envolver num dilema moral com consequências trágicas, dilema esse que Ponsoldt não se dá ao trabalho de explorar com alguma intensidade. O filme é uma aventura, moral sim, mas sem fazer ondas.


A vulgaridade da história, pode fazer com que muitos realizadores se ponham a inventar e criar qualquer coisa que pensariam ser nova, mas Ponsoldt limita-se a seguir em linha reta, cumprindo as regras da tradição mais elementar, e o filme só fica a ganhar com isso. Ninguém acaba por se sentir enganado. Toda a gente se sente bem no seu papel, do diretor, passando pelos atores, até ao espetador. O filme segue ligeirinho, começa e acaba e o que há para ver está às claras.


Alguns espetadores vão sentir-se como um balão a que tiraram o ar: o filme não acrescenta nada ao que já sabíamos, não expõe nada que nos sirva para o futuro e, enquanto thriller, tem uma exasperante falta de suspence. Mas os menos exigentes vão divertir-se com uma históriazinha vulgar, filmada de forma vulgar, que seduz extamente - e principalmente - por ser uma vulgaridade tão honesta. que não merece ser desrespeitada.



sábado, julho 29, 2017

PAIXÕES PROIBIDAS

Uma Outra Educação: CRÉDITOS COMPLETOS

Vamos já esclarecer uma coisa: eu sou um apaixonado de Carey Mulligan, desde que vi "Nunca Me Deixes", um filme tão intenso, dramático e misterioso, cuja impressão em mim foi tão poderosa, que nunca mais lhe consegui pegar, apesar ter ter planos para o fazer mais tarde ou mais cedo. Foi só por ela que peguei neste "An Education" de 2009, ela e a habitual relação aleatória do IMdB, que me levou de "Heróis da Nação", também de Lone Scherfig, para aqui.


 Quando escrevi a crónica de "Heróis da Nação" já tinha dito que Lone Schefig não é a mais exuberante das realizadoras e que o estilo tem muito mais de competente que de espetacular. E este "An Education" é exatamente isso: pouco expansivo, sem correrias, mas intenso e dramático. Uma história que incomoda, seja qual for o ponto de vista que se olhe: a relação dum homem de meia idade - Danny (Dominic Cooper) - com uma rapariga de 16 anos - coisa que, reconheçamos, Carey Mulligan está longe de parecer, por muita maquilhagem que a cubra -, Jenny, sem que isso envolva o que habitualmente se chama de abuso - no sentido em que a jovem está envolvida na situação em consciência e de livre vontade, sabendo ao que vai.



Muitos irão acusar "An Education" de falta de ritmo. O filme parece lento e enrolado, mas essa é quase como a marca de água de Scherfig. Nos três filmes que vi da realizadora - "One Day" de 2011 (de que falarei aqui brevemente), este de 2009 e "Heróis da Nação" de 2016 - a realizadora demonstra não ter pressa na descrição das cenas, demora o tempo que for necessário para que o espetador se aperceba do que está em causa e para que os atores saboreiem o seu personagem na situação em que foi colocado.


Mesmo quando tenta o mais próximo que sabe da comédia romântica - o caso de "One Day" -, Lone Scherfig prefere que o riso e a comicidade resultem por a situação ser saboreada como um rebuçado que se derrete lentamente. Afinal, em certo sentido, todos os filmes aqui referidos não deixam de ser romances, embora as situações dramáticas se acumulem, de forma a criar um todo mais próximo do drama que do romance. O espetador fica sempre intrigado sobre o que realmente foi ver ao cinema.


Este "An Education" sofre do mesmo mal - se é que é um mal! - de todos os filmes de Scherfig que falo aqui: tem à sua disposição material de primeira qualidade (a história, os atores, a cenografia, a sonoplastia...) mas depois, a forma como transforma as peças soltas numa máquina completa, parece sempre ter um grão de areia a emperrar a engrenagem. Nenhuma destas obras é má - muito pelo contrário -, mas todas elas são potencialmente excelentes e tropeçam algures, ficando-se a meio caminho entre o suficiente-mais e o bom-menos.

sexta-feira, julho 28, 2017

DO FIM PARA O PRINCÍPIO


Antes de Vos Deixar: CRÉDITOS COMPLETOS

Vamos já começar pelo fim: Samantha (Zoey Deutch) e o seu grupo de amigas, Lindsay (Halston Sage), Ally (Cynthy Wu) e Izzy (Erica Tremblay), parecem morrer num acidente de automóvel na noite de São Valemtim. Já está! O primeiro "spoiler" destas crónicas cinematográficas?... Engano. É que, a partir daí é que a aventura começa, porque a coitada da Sam vai entrar numa espiral de loucura, em que passou a acordar todos os dias no mesmo dia, dia após dia, e após dia, e após dia...


À primeira vista é como se a Samantha Kingston de "Before I Fall" tivesse encontrado o seu "O Feitiço do Tempo", ou o seu "Efeito Borboleta", ou o seu "No Limite do Amanhã", ou, sei lá, um outro qualquer, já que a história está tão explorada, que a lista não deve acabar com facilidade. Só que ao contrário do meteorologista Phil, ou de Evan, ou do soldado Cage, o dia desta adolescente é duma tal vulgaridade, que ficamos sem perceber exatamente porque razão merece ser repetido ao infinito. Ao ponto do espetador se sentir tão preso como a própria personagem.


Lauren Olivier escreveu um bestseller adolescente, que Maria Maggenti adaptou ao cinema. Como não li o livro, não sei como a autora consegue fazer com que o dia da personagem possa ter algum interesse especial, mas sei que a argumentista colocou toda uma plateia presa numa sala à espera de algo que parece não valer a pena ter acontecido. E a realizadora Ry Russo-Young fica com uma história redonda, tão redonda que não consegue parar de dar voltas no mesmo lugar.


É verdade que "Before I Fall" tem um mistério e isso vai mantendo o espetador interessado no desenlace do drama, mas a história vai avançando meio aos tropeções, entre o fim que já sabemos e os meios que, se não sabemos, vamos adivinhando sem dificuldade. Entre o desfecho e as peripécias, fica um dia repetido sem razão.


Convém os leitores destas pequenas crónicas não desistirem já de dar alguma atenção a "Before I Fall". Os atores fazem o seu papel com competência e o conjunto geral é suficientemente apelativo para merecer um olhar, pelo menos por aqueles mais interessados nas coisas da teia do tempo. Mas não esperem nada que já não tenham visto. Como um daqueles dias feitos de rotinas tão normais, que se hão-de repetir sem ser preciso fazer grande drama disso.