"Carol" não é filme para quem não gosta de cinema que arde em lume brando. No entanto, ao contrário do que disse aqui acerca de "A Kind of Murder", isto é tudo o que uma história de Patricia Highsmith deve ser: intensa mas dramaticamente lenta, com um cuidado exemplar na composição psicológica dos personagens, com a ação a avançar devidamente para um epilogo final, que, pode ou não, ser o que se imagina.
Os espetadores mais atentos vão encontrar muitas referência a Hitchcock, na forma como Todd Hynes filma gestos, expressões, pequenos movimentos de câmara. Mas nada retira ao filme a sua beleza dramática. Esta é uma obra triste, desenvolvida lentamente numa novela que, para a época, foi revolucionária e provocadora.
Se hoje em dia o tema da homossexualidade feminina é uma banalidade, nos anos 50 - quando a novela foi escrita -, Patricia Highsmith meteu-se por caminhos inexplorados e atreveu-se a mexer num tema (ainda) tabu. Todd Hynes e as sua atrizes Cate Blanchett (Carol) e Rooney Mara (Therese) parecem respeitar esse compromisso da obra original e tratam o tema com respeito e empenhamento.
Tudo em "Carol" é suberbamente equilibrado e feito de tal forma que cada coisa se encaixa na perfeição, extamente no lugar em que tem de estar. Como disse no inicio, é um filme que corre devagar, arde, é verdade, mas é um fogo que não espalha brasas, antes fervilha em banho-maria. Queima, mas só depois de ser tarde demais.
É fantástico quando um romance consegue utilizar todos os clichés do género de forma tão original, quase invertendo a lógica da normalidade, como "Touched With Fire". É verdade que os temas psiquiátricos, psicanalíticos e outros "psis" me fascinam, mas este filme consegue fazer algo mais: transformar banalidades em momentos interessantes.
"Touched With Fire" é um "rapaz conhece rapariga" como todos os outros, com os momentos chave do encontro, do enamoramento, do drama e da reconciliação, muito bem definidos. Mas toda essa vulgaridade vem embrulhada num papel de luxo, luminoso e original, para o qual contribui as fantásticas interpretações de Katie Holmes (Carla) e Luke Kirby (Marco).
Paul Dalio tem uma realização honesta - mais do que brilhante -, num filme que, por vezes, é de cortar a respiração. O tema central vagueia entre a doença e o romance, sem nunca se conseguir decidir. Essa é uma das criticas que lhe podemos fazer. Mas a simplicidade com que assume essa bipolaridade, só faz com que o espetador seja cúmplice da indecisão.
Carla e Marco são doentes. É através da doença - e por causa dela - que se encontram e se desencontram; é por causa dela que se juntam e separam, que saboreiam a loucura da paixão e sofrem o drama da separação. Mas em momento algum o filme tem uma atitude paternalista ou de os tratar como coitadinhos infelizes. A poesia brota tanto das suas palavras como da forma como são seguidos na sua loucura. Não são vitimas das circunstancias, são agentes da ação.
Paul Dalio também é doente bipolar - no final homenageia uma serie de bipolares que, duma maneira ou de outra, mudaram a história da humanidade: Edgar Allan Poe, Jackson Pollock, Tchaikovsky... A lista é longa e não está lá Fernando Pessoa, talvez por esquecimento ou por desconhecimento -, e isso só faz com que esta sua primeira longa metragem seja tanto feita com a razão, como com o coração. Estamos tão saturados de romances vazios, que um romance com sumo faz-nos subir ao sétimo céu.
Pergunto-me frequentemente, o que faz um filme ser de tal forma atraente, que nos faz querer regressar a ele de tempos a tempos, como um imã que atrai o metal? Até porque "Lost In Translation" - vá-se lá saber porquê, estupidamente traduzido para português por "O Amor é um Lugar Estranho" -, não tem ação, não tem cenas surpreendentes, não tem episódios escaldantes. É apenas uma história de dois personagens que se cruzam acidentalmente, nos corredores dum hotel, numa cidade estranha.
Os que já me conhecem, dirão que tem Scarlett Johansson (Charlotte), mas posso já adiantar que é muito mais que isso, até porque ela não faria qualquer sentido sem Bill Murray (Bob Harris), porque é apenas na companhia um do outro que os seus personagens conseguem desbravar um pouco da solidão que os atormenta. Uma solidão que tem muito mais a ver com um deserto interior que com a falta de companhia exterior.
Quer Bob quer Charlotte, cada um à sua maneira, estão perdidos numa cidade superpovoada, rodeados de gente cuja língua não entendem e isso poderia ser motivo suficiente para se ligarem. Mas com o desenrolar do filme, percebemos que a sua empatia tem muito mais a ver com a falta de sentido, aquele sentido que nos move na vida - não na cidade, que essa tem setas com indicações. Talvez pareça que, para um, é mais tarde que para o outro, mas nem isso parece afetá-los na relação privada.
"Lost in Translation" é nitidamente um romance. Mas é precisamente por poder não o ser, que consegue manipular o espetador ao ponto de ele nunca saber o que pode esperar, mesmo que cedo se perceba que não pode esperar muito, ou nada. Sofia Coppola abandona a parte dianteira do cinema e coloca-se definitivamente no lugar para onde parece ter nascido: o de realizadora. Depois do fantástico "As Virgens Suicidas", vai buscar inspiração ao ADN paterno e dá uma lição de direção a muitos nomes mais velhos e mais experientes.
Muito poucos filmes nos fazem pensar para além do seu fim, o que não é necessariamente mau. O cinema pode ser puro entretenimento e há grandes obras nesse aspeto particular e há muitos espetadores que os preferem assim. É justo. Só que "Lost in Translation" é todo sobre sentimento e pensamento. É uma experiência humana sobre o amor, a solidão, e a vida; é tudo sobre desencontros e a necessidade existencial de os transformar em algo novo, para podermos seguir em frente com as nossas mais profundas experiências.
Poucos filmes me "atingiram" como "Lost in Translation" e o termo "atingir" tem aqui um sentido muito positivo; podia dizer que poucos filmes me proporcionaram tanto prazer como este, mas poderia parecer perverso, já que é um filme triste na sua mais profunda essência - isto apesar de várias cenas com piada e alguns diálogos irónicos; a verdade é que esta é uma obra bela e simples, guiada por pensamentos interessantes, escrito, realizado e representado com inteligência, daquela que não precisa de ser exibida, apenas paira no ar como a atmosfera.
"The Girl On The Train" podia ser um grande filme, independentemente da novela de Paula Hawkins, que não conheço. Tem lá (quase) todos os ingredientes para um excelente thriller, apesar das inúmeras referências a Hitchcock - "Janela Indiscreta", "Vertigo" - incluindo a inevitável loira misteriosa. Mas confunde-se a si próprio e acaba por tornar-se numa confusão decepcionante.
Como diz o grande cozinheiro Marco White, "mais é menos", ou seja, não é preciso complicar para um prato simples ser fantástico. É o que o realizador Tate Taylor não faz, tendo na mão uma boa história e bons atores, mas tornando (o que poderia ser) um bom filme, num labirinto de banalidades.
Claro que Emily Blunt (a alcoólica e deprimida Rachel) é brilhante, acompanhada dum elenco profissionalmente irrepreensível. Mas isso só faz com o espetador se sinta mais frustrado, por todas as potencialidades que a película tem e que acabam por nunca se concretizar. O filme tem um motor Ferrari, mas nunca consegue andar melhor que um Fiat.
O filme tem tudo o que seria preciso para ser brilhante, incluindo o final surpreendente, o que faz acreditar que a história de Paula Hawkins deveria ser ingrediente suficiente para fazer uma obra brilhante. Mas a principal sensação do espetador, é ir a correr para uma livraria comprar o livro, em vez de saborear o filme que deixa um travo estranho na boca, como um prato que podia ser extraordinário, feito de ingredientes de primeira qualidade, mas que se complica a si próprio, com temperos e cozeduras demais.
Não me interpretem mal: não é um filme horrível. É apenas um filme que poderia ser excelente e não passa de medíocre. Complica o que é simples. Não basta o tradicional "o livro é sempre melhor que o livro", até porque não li o livro e, portanto, não estou a fazer comparações. Estou a falar de cinema puro e simples: "The Girl On the Train" tem tudo para poder ser o paraíso da degustação; acaba por não passar dum prato complicado, mas sem sabor.
"Nocturnal Animals" vai certamente deixar um sabor estranho na boca de muitos espetadores. Primeiro, é um filme visualmente cuidado, ou não tivesse Tom Ford começado por ser estilista de roupa; segundo, é um filme duma extrema violência, explicita e implícita, o que faz com que nunca saibamos se é um romance, um thriller, um drama psicológico... Ainda porque contêm várias histórias dentro da história, sem nunca parecer querer evidenciar nenhuma.
O filme conta com a participação dum elenco de luxo, mas principalmente conta com a fascinante meio-loura-meio-ruiva Amy Adams (Susan Morrow, a depositária da novela central), que espalha uma beleza ofuscante por toda a película.
A sequência do gato e do rato na autoestrada é excelente, tensa e dramática, o que prova que Tom Ford sabe filmar acção quando quer, isto apesar de todo o filme ter tendência para ser densamente inativo, mesmo que, como já disse, faça uso duma violência invulgar. Uma (um várias) fábula(s) sobre o amor, a vingânça e a linha que separa a vida e a morte. Enquanto Susan Morrow lê, Tony Hastings (Jake Gyllemhaal) - que também pode ser Edward Sheffield, o ex-marido da própria leitora Susan - desespera, sangra, literal e metaforicamente.
Vencedor do Prémio do Júri em Veneza, "Nocturnal Animals" é um thriller psicológico, ou um drama romântico? Não sei. Mas sei que é portador duma tensão arrebatadora, que explora a ténue linha que separa o amor do ódio, a vingança da crueldade, a perdição da salvação. É um filme sobre a descoberta de verdades escondidas, aquelas que todos nós queremos manter ocultas no mais fundo de nós próprios.
Não vai ser um filme consensual. Muitos vão achá-lo doce, outros amargo; muitos, simplesmente, não vão aceitar que um desenhador de moda, muito preocupado com o estilo, seja capaz de fazer uma obra intensa. De qualquer maneira, é uma película que tem de ser vista por quem gosta de cinema, puro e simples, feito com cuidado e com versatilidade - que vai, precisamente, do sal ao açúcar, do amor ao ódio.
Tenho a confessar que gostei do primeiro "Jack Reacher". Era um "teoria da conspiração" bem conseguido, com ritmo, acção e divertimento, mesmo considerando que o Jack Reacher de Lee Child tem quase 2 metros de altura e 110 quilos de peso, coisa que o coitado do Tom Cruise, por muito que tente, não consegue atingir, mas mesmo assim, o filme estava bem conseguido.
O problema é que a Paramount adquiriu os direitos de algumas das histórias e agora tem de despachar filmes para compensar o investimento. E se é verdade que Tom Cruise sabe todo o livro da ação - aprendeu a conduzir F-11's e Chevrolets e, reconheçamos, as "Missões Impossíveis" nem são nada de deitar fora -, também é verdade que nem sempre as mãos que o dirigem estão à altura da encomenda.
A adaptação para cinema deste "Jack Reacher: Never Go Back", ficou a cargo de Richard Wenk, Edward Zwick e Marshall Herskovitz, que nem por sombras conseguem atingir o nível do seu antecessor de 2012.
Este também tem lá (quase) tudo: tiros, porrada, correrias, mas o resultado final é uma omelete sem sal. Não basta por toda a gente aos murros, para fazer um bom filme de ação. É preciso mais.
Os mais atentos dirão que o realizador Edward Zwick tinha obrigação de fazer melhor, porque já tinha conseguido um dos melhores filmes de Tom Cruise, "O Último Samurai", ou porque também já tinha assinado o interessante "Diamante de Sangue" com Leonardo Di Caprio, por exemplo, mas aqui perde-se em rodriguinhos desnecessários e acaba por não sair nada de interesse, mesmo para quem gosta de porrada pura e simples, sem muita conversa e sem muito assunto para pensar.
A tentativa de dar algum interesse ao mistério do passado de Jack Reacher, tentando meter-lhe uma filha pelo meio, pode dar algum assunto durante um bocado, mas antes do meio do filme, já toda a gente percebeu onde é que a história vai parar e tudo serve apenas para Danika Yarosh (Samantha) ir espalhando o seu charme adolescente.
Não é com adaptações destas que a produtora vai recuperar o investimento feito nas histórias originais - de que eu não gosto particularmente, mas que só conheço duas ou três, já nem me lembro! Ainda por cima, na sequência de uma primeira tentativa (muito) bem sucedida, o que faz com que esta segunda tentativa seja ainda mais decepcionante.
Não conheço a história original de M. L. Stedman, mas este "The Light Between Oceans" é um filme inteligente, bem realizado e bem interpretado, com diálogos interessantes e uma história sobre pessoas honestas, que fazem más escolhas com a melhor das intenções.
Não é um filme com ação, no sentido próprio do termo, mas é um filme que avança com pezinhos de lã ao longo dum drama que levanta interessantes problemas éticos, sem fazer julgamentos mas não deixando de marcar uma posição clara sobre a trama. Pode ser acusado de moralismo, mas Derek Cianfrance (argumentista e realizador) tomou a mais difícil das opção: não ficar indiferente ao problema, em vez de apenas contar uma história de forma esterilizada e amorfa.
O filme podia ser mais curto, talvez, optando por satisfazer os espetadores mais impacientes. Mas é claro que "The Light Between Oceans" está a piscar o olho aos Oscars, coisa para a qual não vamos aqui fazer futurismo. Algumas cenas parecem prolongar-se mais que o necessário e outras poderiam mesmo não estar lá. Só que isso não retira muito à grande qualidade do todo.
Este é um daqueles filmes para ser saboreado lentamente, desfrutando dum drama que nos surpreende a pouco e pouco, sem pressas, como um bom chocolate que se vai derretendo na boca. Sabe gerir os imprevistos de forma surpreendente, antecipando o espetador ao que ele imaginaria. Antes da plateia poder prever, já lhe é dado.
Servido por bons atores, principalmente Alicia Vikander (Isabel Graysmark), muito bem acompanhada por Michael Fassbender (Tom Sherbourne) ou Rachel Weisz (Hannah Roennfeldt), dirigidos com discrição mas com sabedoria, "The Light Between Oceans" é um filme que vale a pena.
É verdade que lhe falta um bocadinho, algures, para ser um filme arrasador. Mas não deixa de ser um excelente exemplar de cinema, uma boa tarde passada com os amigos na sala escura. Vai partir corações e deixar muita gente a discutir. É sempre um bom sinal, quando isso acontece, não é?
Qualquer história de Patricia Highsmith é um bom motivo para ir ao cinema, o que Hitchcock percebeu muito bem, quando adaptou "O Desconhecido do Norte-Expresso". Foi principalmente por causa dela que peguei neste "A Kind of Murder".
O que salta logo à vista é o extremo cuidado na imagem e na reconstituição da época, um colorido impecável e um guarda-roupa de excelência. Mas com o desenrolar do filme, percebemos que todo este design serve apenas para distrair do mais importante: o filme é desinteressante e todo o suspense da escrita de Patricia Highsmith é esbanjado sem qualidade.
A adaptação da estreante Susan Boyd não passa de uma esboço da história e todo o ambiente negro e dramático da autora original, perde-se numa sucessão de personagens sem interesse e sem empatia, quer uns com os outros, que com a audiência. Salva-se, talvez, Ellie (Haley Bennett), apanhada naquele turbilhão, sem perceber bem como.
Patricia Highsmith - a rainha do suspense literário - merecia melhor, o que o realizador Andy Goddard - talvez demasiado viciado no ritmo da TV - nunca parece perceber, incapaz de dirigir um grupo de atores que já deu provas anteriores de poder fazer melhor, dando a impressão que estão ali como se estivessem noutro filme qualquer.
"A Kind of Murder" tenta distinguir-se de outros filmes policiais, através duma abordagem cuidada na imagem, mas acaba por não passar disso. Falta-lhe interesse, drama, enfim, falta-lhe tudo, desde os personagens à realização. Mas acima de tudo, falta-lhe o aproveitamento da fantástica escrita de Patricia Highsmith, que consegue meter o leitor de cabelos em pé, da primeira à ultima página.
Através do IMdB, fui dirigido de "El Cadáver de Anna Fritz" para este "The Autopsy of Jane Doe" e por isso estou-lhe eternamente agradecido, porque este é um dos melhores filmes de terror desde há muitas décadas. Não apenas uma colagem de cenas gore a despropósito, mas um monumento ao melhor horror dos anos 70 e 80, numa vertigem que há muito não via.
O realizador Adré Overdal pega num argumento de Ian B. Goldberg e Richard Naing - habituados a trabalhar para a televisão e, por isso, conhecedores duma impecável noção de ritmo - e constrói um filme absolutamente impecável, no que toca ao horror e ao mistério. Estou-lhe eternamente agradecido.
A história é simples: um cenário que parece ser de crime sangrento, com três ou quatro corpos. Um deles, uma bela e jovem desconhecida, sem sinais aparentes de qualquer tipo de violência. É, portanto, preciso perceber o que aconteceu, trabalho esse que começa pela a autópsia da rapariga, tarefa dos médicos legistas Austin e Tommy Tilden (Emile Hirsch e Brian Cox). Passaram-se não mais de 20 ou 30 minutos. Está na hora de apertar o cinto e começar a verdadeira corrida!
Sim, o filme também tem todos os clichés do género, sustos que pretendem ser imprevisíveis, telefones que não funcionam e telemóveis sem rede; sim, o final encontrado vai parecer rebuscado e quase infantil. Mas tudo isso é facilmente esquecido pela atmosfera intensa que o filme consegue criar, um hino irrepreensível ao melhor John Carpenter das séries "B". Aquele cinema de terror, ao qual não se lhe pode apontar defeitos, por muito que os encontremos no desenrolar da película.
Excelente ambiente de terror, personagens interpretados por atores competentes, tudo embrulhado numa fantástica direção. É por se fazerem filmes destes, que qualquer espetador - amante do terror ou não - fica eternamente agradecido.
"Mr. Church" é um filme sobre o amor, nas suas perspetivas mais variadas, mas, acima de tudo, é um filme feito com amor. Tudo, dentro desta obre, emana um profundo sentimento de paixão, e isso inclui a escrita sensivel de Susan McMartin, a realização cuidada de Bruce Beresford (sim, o mesmo de "Driving Miss Daisy" ou "Paradise Road"), e a representação dos atores. Os mais sensiveis irão chorar - várias vezes!... -, mas não faz mal; são lágrimas de alegria e de prazer.
Eu nunca fui um grande admirador de Eddie Murphy (Mr. Church), salvo algumas (muito) raras exceções. Por isso, este filme é quase um murro no estômago. É verdade que não está sozinho e isso faz toda a diferença, ainda por cima na companhia de Britt Robertson, Natascha MeCelhone ou as pequenas MecKnna Grace e Natalie Coughlin, que saltou das infantilidades da TV, para partir corações em "Mr. Church".
"Mr. Church" é um filme para nos apaixonarmos, pelos personagens, pelas relações que estabelecem entre si, pelo sentimento de amizade que todos colocam no que fazem e na forma como interagem uns com os outros. Nada é por acaso na história e cada um sabe muito bem onde quer chegar. Este é aquele cinema que parte corações, deixa o estômago ao pé da boca e faz derreter o mais frígido. Estamos perante uma obre sobre emoções, que, acima de tudo, provoca emoções. Coisa rara hoje em dia!
No mesmo sentido que é um filme sobre a vida, "Mr. Church" é um filme sobre a morte, sobre a importância do amor e da amizade, na salvação que daí retiramos ao partilha-los com os outros. Todos estes personagens têm uma relação profunda com quem os rodeia e consigo próprios, num circulo que acaba por incluir o espetador.
É raro acontecer, no cinema atual, que um filme partilhe tanta emoção, sem nenhum outro sentido que não seja esse mesmo: dividir sentimentos com a plateia. Não sei o que vai acontecer com "Mr. Church" nos prémios de cinema de
2016, a carreira do filme foi muito discreta, pouco publicitada, e o
box-office não deve ter acumulado muitos zeros. Mas há uma coisa que eu
sei: quem gosta de dramas, vai ficar com um enorme peso na consciência,
se, por acaso, acabar por não o ver.