sexta-feira, março 17, 2017

BALANÇAR NO VAZIO

Nunca Me Deixes: CRÉDITOS COMPLETOS

"Never Let Me Go" é um filme fantasticamente desconcertante, que deixa qualquer um a cair no vazio sem nenhum ponto de apoio, como Kaos caiu sem fim da "Teogonia" de Hsíodo. Com a diferença que Kaos acabou por encontrar Gaia, enquanto aqui, o espetador é deixado sozinho para resolver um problema sem solução, fica solitariamente a digerir uma das histórias mais esmagadoras que me foram dado ver em cinema.

 

Nunca li a novela original de Kazuo Ishiguro - e depois de ver este filme, tenho dúvidas que tenha estômago para a ler!... - mas sei que Alex Garland escreveu um argumento absolutamente arrebatador e, ao mesmo tempo, esmagador, sobre a história de três amigos e do seu relacionamento peculiar, enquanto crescem através da infância até à idade adulta.


Não restem dúvidas que "Never Let Me Go" é um filme de ficção cientifica, mesmo que nos sejam oferecidas datas de referência em cada parte da história, que colocam o espetador nos anos 60 e 70,  mas nunca sabemos com exatidão onde estamos, embora os automóveis tenham volante à direita, portanto calculamos sempre que nos situamos algures nas Ilhas Britânicas.



O filme é um exemplar maravilhoso de como os ingleses fazem cinema: impecavelmente representado, com um cuidado extremo na reconstituição de cada local e de cada cena. Tudo parece planeado ao mais infimo pormenor, mas com uma naturalidade inigualável no resultado final. Tudo funciona na perfeição, desde a música à realização. Cada momento é um todo, em que cada um participa de corpo e alma.



Como quase sempre, Keira Knightley (Ruth) é brilhante e Andrew Garfield (Tommy) não lhe fica atrás, mas a grande estrela é Carey Mulligan (Kathy), a narradora e, de certa forma, o personagem central da história, no sentido em que é o fio condutor dos diversos momentos. Os três compõem uma brilhante descida ao inferno da infelicidade, que é precisamente onde "Never Let Me Go" se sente como peixe na água.


Aconselho o uso de um poderoso antiácido para o estômago, porque esta hora e meia de cinema vai deixar muita azia. É um filme que incomoda, feito para provocar um efeito depressivo e esmagador. "Never Let Me Go" não é sobre felicidade e esperança,  a começar por todo o ambiente que envolve os personagens até à forma como o realizador Mark Romanek vai contando a história, arrastando o espetador para um beco sem saída.

UMA FANTÁSTICA VIAGEM NO TEMPO

A Mulher do Viajante no Tempo: CRÉDITOS COMPLETOS

"The Time Traveler's Wife" é considerado um dos livros fundamentais da ficção cientifica do século 21 e este filme é um romance brilhante, baseado num livro brilhante, interpretado por atores brilhantes. É um daqueles filmes que é obrigatório que tivesse sido feito, apesar da história das viagens no tempo estar repleta de outras obras igualmente brilhantes.


Se o filme e o livro são realmente de ficção cientifica, não é discussão que nos interesse para aqui; e se o filme é melhor ou pior que o livro, muito menos. "The Time Traveler's Wife" é uma hora e meia do melhor cinema que se pode assistir, sejamos ou não amantes de histórias de antecipação ou de histórias de amor. Podem-se queixar de algumas partes interessantes do livro não estarem aqui - como a desastrosa relação de Claire com Gomez (Ron Livingston) e a influência que isso tem em Henry (Eric Bana) -, mas o filme não é o livro. Aceitem-no.


Rachel McAdams (Claire) e Eric Bana são fantásticos um com o outro e com os personagens que interpretam e o resto do elenco só pode não parecer tão fantástico, por causa dos dois atores principais. Além disso, o argumentista Bruce Joel Rubin - lembram-se de "Ghost"?... - pega num best seller e não inventa, tentando seguir o mais possível à risca o que já tinha sido bem feito, limando aqui e ali, deitando fora quando desnecessário para o filme.


O filme não procura responder a todas as questões, pelo que tem inúmeras incongruências e lacunas lógicas, mas afinal, quem é que quer que um romance seja a perfeição das vicissitudes da vida? Para isso, basta a vida ela própria, que parece ter de encaixar como um puzzle. "The Time Traveler's Wife" é uma fantasia e nas fantasias tudo é possível, como aparecer nu em qualquer lado e haver sempre cobertores por perto, ou uma loja de roupa, para poder ser assaltada.


Quem gostar de romances, tem um enorme filme sobre a premissa de "nunca deixar nada por dizer"; quem gostar de ficção científica, também tem um enorme filme sobre o drama de poder e querer, ou não, saber o futuro. Em ambos os casos, ninguém deve deixar esta obre para trás. Se já tiverem lido o livro, aceitem sem pestanejar o que a película tem para oferecer da fonte de inspiração original; se não tiverem lido o livro, corram à livraria mais próxima e não o percam, antes ou depois de irem ao cinema. Tanto faz!