domingo, setembro 20, 2020

A IMPERFEIÇÃO DO MEDO

CRÉDITOS COMPLETOS






Martha Marcy May Marlene” é um daqueles filmes tensos, que faz a plateia remexer-se na cadeira sob o peso da angústia. Não que daí advenha algo, mas porque o espectador está permanentemente a antecipar coisas que, podem ou não, vir a acontecer.  Não é o filme perfeito – muitos vão sentir-se desiludidos com o final -, mas é na sua imperfeição que reside a sua grandeza. Tanto o realizador e argumentista Sean  Durkin como a actriz Elizabeth Olsen dão-nos uma primeira obra de dimensão promissora.

Martha (Elizabeth Olsen) foge de uma seita onde viveu durante dois anos e que gira à volta do carismático Ptrick (John Hawkes). Sem sitio para onde ir, pede ajuda à sua irmã, em casa de quem vai viver. Desorientada no tempo e nas emoções,  o realizador empurra - tando metafórica como literalmente - o espectador para um rodopio entre o passado e o presente, fazendo que a desconexão da personagem se alastre pela plateia.

Com uma direcção segura, Sean Durkin leva Elizabeth Olsen a uma interpretação que não iremos esquecer tão facilmente.  A actriz desempenha de forma brilhante o papel duma Martha inadaptada, confusa e amedrontada, arrastando o espectador pelo buraco sem fim da angústia. A plateia é solidária, sentindo o peso insustentável do ar da sala a comprimir-lhe os nervos até ao limite do suportável. Esta Martha vai ficar na memória de muita gente.

“Martha” é nome de baptismo, “Marcy May” é o nome que lhe dão na seita e “Marlene” é o nome com que todas as jovens do  culto atendem o telefone. Se com tal título, o filme não haveria de ser simples, o argumento não exagera nas confusões, a história é perfeitamente legível na sua linha do tempo. O desenrolar da acção é claro e, ao contrário de Martha, o espectador sabe sempre de onde veio e onde está. O “para onde vai” já é mais complicado!...

Embora seja um filme de 2011, eu só o vi em 2020, o que faz dele um “filme do ano” para mim. Há uns meses disse aqui que tinha a impressão de “O Homem Invisível”,  de Leigh Whannell ,  poder vir a ser um dos melhores thrillers de suspense do ano, ainda longe de saber no que se tornaria devido ao vírus e a todas as limitações impostas. Depois de “Martha Marcy May Marlene”, já não sei não, a concorrência começa a ser séria!