domingo, abril 23, 2017

MONTANHA RUSSA

da Wikipédia: Bokeh (do japonês boke ぼけ, "blur") é um termo usado na fotografia referente às áreas fora de foco e distorcidas, produzidas por lentes fotográficas. Diferentes bokehs de lentes produzem efeitos estéticos separados em fundos desfocados, os quais são frequentemente utilizados para reduzir distrações e enfatizar o assunto primário.

CRÉDITOS COMPLETOS

Um primeiro aviso aos mais distraídos: "Bokeh" vai deixar os espetadores desprevenidos "de rastos". Começa por parecer um simples romance, passa a parecer um anúncio de propaganda à beleza deslumbrante da Islândia, depois dá-se ares de ficção cientifica e acaba por ser uma poderosa montanha-russa de emoções, deixando a plateia desarmada e esmagada, literalmente! Preparem-se: é algo que não vão esquecer muito facilmente, nos próximos tempos!


Durante uma viagem romântica à Islândia, um casal - Jenai (Maika Monroe) e Riley (Matt O'Leary) - acorda um dia completamente sozinho no mundo, sem nenhuma razão aparente, sem motivo que o justifique. De repente, desapareceram todos os seres vivos do planeta e os dois estão completamente isolados numa ilha de onde não podem sair. Adoecer é morrer; ferir-se é morrer; estão absolutamente dependentes um do outro, nas suas limitações, no seu desespero.


A forma como cada um vai enfrentar a situação torna o filme um momento exemplar de tensão, drama e suspense, já que a natureza de ambos se revelará decisiva no desenrolar da aventura. Os realizadores e argumentistas Geoffrey Orthwein e Andrew Sullivan limitam-se a seguir os dois personagens nas duas deambulações, parecendo que estamos atrás de duas pessoas às voltas com situações de desinteresse absoluto.


Têm à sua disposição os melhores restaurantes sem pagar, as prateleiras de supermercados repletas, os bares com todas as bebidas à mão... E o amor que os une, para desfrutarem duma ilha deserta, onde nada os poderá incomodar na sua viagem idílica. Ainda por cima o argumento não se preocupa em procurar uma explicação para o sucedido, não se preocupa com a curiosidade do espetador e os próprios personagens parecem - parecem, só! - decidir aproveitar o momento.


"Bokeh" parece ser um simples desenrolar de nada. Parece ser um novelo que se vai desfiando sem nunca emaranhar. Mas é uma ilusão. É um filme tenso, que caminha em passos seguros para um final muito bem preparado, de tal forma que vai colocar os espetadores não como simples testemunhas, mas quase como parte ativa do drama. Repito: é uma hora e meia que não vão esquecer facilmente. Depois, não digam que não vos avisei!

quarta-feira, abril 19, 2017

COMIDA DE HOSPITAL

De Repente, Já Nos 30!: CRÉDITOS COMPLETOS

Até pode ser que seja "Big" o primeiro filme que nos vem à cabeça quando vemos este "13 Going On 30", mas foi "Peggy Sue Got Married" do que mais me recordei. Este é um daqueles casos que sabe a "comida de hospital", aquela coisa onde os cozinheiros passam horas a matutar sobre hidratos de carbono e equilíbrio nutricional, mas depois, aos doentes que realmente comem, sabe sempre a uma coisa insonsa feita à pressa e sem interesse.


É que Gary Winick até consegue um filme com uma mensagem importante, que deveria ser ouvida com atenção, mas fá-lo num filme que acaba por não ter nada de especial a dizer - o que pode parecer uma contradição, mas não é quando passar a hora e meia que o filme dura. Ainda por cima os atores não estão especialmente mal - embora entre Jenna (Jennifer Garner) e Matt (Mark Ruffalo) pudesse haver um pouco mais de faisca.


A festa de anos de ma menina de 13 anos corre particularmente mal e ela culpa o seu melhor amigo pelo fracasso, desejando saltar o tempo e acordar com 30 anos, desejo esse que o destino decide satisfazer. No dia seguinte, está no corpo de uma adulta, com a mentalidade de uma criança, enquanto convive com os seus amigos de infância, que têm toda uma história de vida no seu passado.



"!3 Going On 30" é, portanto, um filme sobre segundas hipóteses, sobre dar mais atenção ao que temos do que ao que desejamos ter, o que Jenna irá aprender não sem antes atravessar algumas situações que envolvem alguma descoberta sexual, álcool - algo que agrada particularmente à menina em corpo de adulta - e outras aventuras que era suposto terem piada, mas que acabam por parecer sempre ridículas e a despropósito, como se fossem metidas ali sem nexo e sem cuidado.


Jennifer Garner não está nada mal no papel que lhe cabe de representar uma trintona com mentalidade de criança, conseguindo quase reproduzir aquele andar desengonçado de pré-adolescente, mas o filme não passa duma brincadeira forçada. Fica a milhas de distância do citado "Big" e do "Peggy Sue...", então, nem se fala! O que é uma pena, porque podia ter inventado um drama complexo sobre o amor e a amizade, daqueles que duram uma vida.


sábado, abril 15, 2017

BONS MOTIVOS

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Todos os motivos são bons para dar beijinhos e abraços e "The Sweet Life" usa-os todos, por mais vulgares e batidos que sejam, sem renunciar a nenhum dos habituais clichés do género. Só que fá-lo de forma surpreendentemente interessante, usando toda a previsibilidade tradicional num sentido quase original. O filme começa e acaba de todas as  formas normalmente gastas, mas vai deixando um perfume muito a seu gosto pessoal, quase como se fosse novo.



E isto é tanto mais espantoso quanto Chris Messina (Kenny) e Abigail Spencer (Lolita) não têm nenhuma química especial e Rob Spera - o homem de muitos episódios da série de TV "Mentes Criminosas" - é o mais improvável dos realizadores para este género de filmes. Tudo isto a juntar-se à escrita de Jared Rappaport, do qual retivemos apenas o pseudo-erótico-envergonhado "Blindness" de 1998.


"The Sweet Life" nunca quer parecer o que não é e logo ao fim de dez minutos já sabemos ao que vamos: Lolita introduz-se a Kenny, que olha perdido sobre uma ponte, para as águas do rio de Chicago: "está a ocupar o meu espaço...", o que não sendo a forma mais original para meter conversa é, certamente, a deixa ideal para o espetador não ter mais ilusões. Estamos aqui para os rapazes se conhecerem e se amarem - isto, lá mais para o fim, claro.


O filme fala dum pacto suicida, que leva Kenny e Lolita de Chicago a São Francisco, envolvendo pelo caminho cow-boys homossexuais e transplantes de órgãos, enquanto ambos vão fazendo as pazes com o seu passado tortuoso, que os levou à depressão do presente. E isto, dito assim, sem mais nem menos, não parece ter nada de especial, soa como um evidente deja vu de muitos outros filmes do género. Mas depois, o que está guardado lá dentro, é muito interessante e apelativo.


O que Rob Spera consegue, com a cumplicidade competente de Messina e Abigail, é um romance sempre movimentado, inteligente sem ser pretensioso, composto de situações que poderiam cair numa vulgaridade desesperante, mas às quais vai conseguindo sempre emprestar uma originalidade naif, é certo, mas que fascina pela honestidade e pela simplicidade de meios.


"The Sweet Life" tem comédia, drama e romance nas dozes certas para fazer um filme equilibrado, capaz de manter o espetador interessado do principio ao fim, mesmo que prevaleça aquela sensação de saber como tudo vai acabar. O segredo, neste caso, são pequenas surpresas que vão nascendo sem esperarmos e que funcionam como aqueles pedacinhos de amêndoa que irrompem dum gelado de chocolate, lambido com um prazer inconfessável.

sexta-feira, abril 14, 2017

UM DIÁRIO MAL ESCRITO

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Um diário não tem de ser uma obra de incalculável valor literário, pode ser apenas o vómito do dia a dia ou de uma secessão de dias absolutamente vulgares. Ninguém precisa de ser o Guntrer Grass ou o Grabriel Gracia Marquéz para alimentar o gosto por registar num livrinho os acontecimentos quotidianos da sua existência.


O que não é preciso é que seja tão desinteressante como este "Dear Diary, I Died", que pretende ser um thriller, mas que perde todo a possibilidade de manter algum suspense, devido a uma previsibilidade tão desinteressante como tudo o resto de que é composto, a começar pela incapacidade dos atores de se identificar com os personagens - agindo exatamente como se estivessem apenas a representar um texto decorado -, enquanto Ben Demaree anda por ali com as câmaras, a fazer não se sabe bem o quê.



Diana (Nicole Coulon) suicida-se, mas a sua irmã Erica (Kelle Cantwell) não vai na conversa e inicia uma investigação, embrenhando-se no meio académico de Diana e metendo-se numa enorme confusão, suspeitando de que a morte foi assassinato. Nada mais vulgar, mas isso nunca impediu que outros filmes sobre o mesmo tema fossem suficientemente interessantes para merecer atenção.



Nada em "Dear Diary, I Died" é credivel, a começar pelo desempenho dos atores, e a história vai-se desenrolando numa vulgaridade e numa previsibilidade tão desesperantes, que o espetador dá por si a sonhar com o momento em que as luzes se vão acender, para poder sair do cinema o mais depressa possível. Mesmo - ou principalmente - naqueles momentos em que é suposta haver alguma reviravolta surpreendente ou algum momento de maior tensão, coisa que a plateia já antecipou há muito tempo.



O mais estranho no meio de tanta vulgaridade, é que "Dear Diary, I Died" até vem referenciado como premiado em alguns festivais independentes, o que irá servir de chamariz a mais alguns incautos para além de mim. Mas não se iludam, quando o filme chegar ao fim, vão sentir-se desesperados e o tempo perdido no cinema não vai valer uma única linha no diário de ninguém.

segunda-feira, abril 03, 2017

UM PASSEIO MUITO AGRADÁVEL

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"The Thirteenth Floor" é do mesmo ano do primeiro "Matrix" e é inevitável a colagem de um ao outro, embora as referências se fiquem por aí. "Matrix" estabeleceu os padrões cinematográficos dos filmes de aventuras e este "The Thirteenth Floor", para além de começar com a famosa frase ontológica de Descartes, não tem nada que o distinga de outras aventuras românticas que brincam com as viagens no tempo.


É, no entanto, um belo policial de aventuras, dividido entre a atualidade e os anos 30. Corta a direito, sem brincar com a mente do espetador, e mantém a plateia presa ao ecrã a tentar descobrir a ponta da meada. Em minha opinião é muito mais próximo de "Memento" - feito dois anos depois - que de "Matrix", já que tentar encontrar aqui qualquer referência aos níveis de realidade é um exercício perdido.


Hannon Fuller (Armin Mueller-Stahl) viaja no tempo entre a atualidade e 1939, onde se diverte com meninas num hotel de luxo. Um dia é assassinado no tempo atual e isso vai despoletar uma série de aventuras do seu sócio Douglas Hall (Craig Bierko), principal suspeito do crime, que o levam a rocambolescas peripécias entre o presente e o passado, na tentativa de esclarecer o caso.


A partir desta história da novela de Daniel F. Galouye - editada nos anos 60 com o título "Simulacron 3", que não sei se foi alguma vez publicado em Portugal -, Josef Rusnak faz um filme bem entretido, sem muito sumo filosófico mas com muito interesse aventureiro. Os atores representam o seu papel na perfeição, adaptando-se sem dificuldade às mudanças de ambiente, sabendo estar em ambos os planos do passado e do presente. Gretchen Mol (Jane Fuller, a filha misteriosa) aproveita o facto de ser quase a única mulher em cena e brilha com esplendor.


Ninguém se vai arrepender de se sentar no sofá a ver este "The Thirteenth Floor", mesmo que no fim não haja grande assunto para recordar. É um simples policial romântico, bem construído e bem desenvolvido, um sólido exemplar de como se faz um bom "série B". Um passeio muito agradável entre os filmes negros de outrora e a ficção cientifica mais ligeira da atualidade.

terça-feira, março 28, 2017

DIFERENTES PERSPECTIVAS

Aliados: CRÉDITOS COMPLETOS
 
"Allied" é um daqueles filmes que pode ser um romance, um filme de guerra, um thriller, ou um simples filme de espiões, com os habituais bons de um lado e maus do outro. Em qualquer das perspectivas, é um excelente momento de cinema, com todos os ingredientes dos diferentes pontos de vista muito bem misturados e apresentados num produto completo e acabado.


Claro que as interpretações de Brad Pitt (Max Vatan) e Marion Cotillard (Marianne Beauséjour) ajudam muito à qualidade final do filme, mas não é de desprezar o excelente argumento de Steven Knight - consistente e com suspense - e a sóbria, mas eficaz, realização de Robert Zemeckis, que mais uma vez constrói uma história tecnicamente irrepreensível.


Os que me conhecem melhor, dirão que o facto de ser um filme de Zemeckis tem muita influência no meu gosto pessoal. É verdade e não tenho como argumentar contra isso. Este realizador deu-nos alguns dos melhores e mais divertidos pedaços de cinema das últimas décadas, desde "Quem Tramou Roger Rabbit?" a "O Naufrago", passando pelos "Regresso ao Futuro", apenas como exemplo.


Mas "Allied" é muito mais que realização. É um excelente filme de espionagem, que não renuncia a nenhuma das outras perspectivas, sendo também um excelente romance, ao mesmo tempo que é um excelente filme de guerra. Mesmo quando as mentes mais perversas vêem referencias constantes a "Casablanca" - para muitos, o melhor filme de todos os tempos -, este filme risse-lhes na cara e são exatamente essas referências que faz questão de mostrar e sublinhar.


"Allied" é um filme linear, sem reviravoltas nem piruetas. Vai a direito na história que está a contar: um típico produto de Hollywood, para mentes descansadas passarem duas horas no cinema sem confusões.  Mas isso não lhe retira um pingo de interesse. No final, os bons ganham e os maus perdem, como tem de ser numa história para crianças. Mas sejamos claros: nada consegue arrasar mesmo um conto infantil, quando ele é bem contado.

quarta-feira, março 22, 2017

ANTIBUROCRATAS DE TODO O MUNDO, UNI-VOS!...

Eu, Daniel Blake: CRÉDITOS COMPLETOS

"I, Daniel Blake" é um filme brilhante a todos os títulos. Tipicamente inglês, é essencialmente suportado por atores brilhantes, uma reconstituição de cenas impecável e uma naturalidade desconcertante no desenvolvimento da ação. Fazendo uso dos habituais planos quase estáticos, as cenas desenvolvem-se através de interações marcantes e de diálogos lógicos e coerentes.



Daniel Blake (Dave Johns) teve um ataque cardíaco e pretende reformar-se. Por isso, vê-se de repente emaranhado na teia burocrática dos serviços públicos, numa aventura digna do kafkiano Josef K. Nas suas deambulações pelo submundo dos papeis, conhece Katie (Hayley Squires), uma mãe solteira igualmente perdida no labirinto dos gabinetes oficiais. Entre os dois, vai desenvolver-se uma amizade cúmplice.


Esta história, escrita por Paul Laverty e realizada por Ken Loach, rapidamente poderia cair naquela comédia fácil, que faria o filme não passar de mais uma brincadeira sem sentido. Em vez disso, as piadas são inteligentes, os atores são convincentes e convictos do que estão a fazer, transformando tudo numa brilhante critica ao sistema inglês, que, afinal, não é tão diferente daquele que todos nós conhecemos. Essa é a primeira vantagem do filme: a naturalidade com que o espetador percebe que ele próprio poderia ser qualquer um dos personagens.


"I, Daniel Black" deveria ser obrigatoriamente visto não só pelo público - que, certamente, se irá identificar com os personagens -, mas também pelas próprias autoridades, que se sentirão retratadas de forma convincente, sem caricaturas, percebendo exatamente como nos sentimos quando nos perdemos na teia da burocracia oficial, sem piadas inúteis nem cenas exageradas.


Este filme até pode ser um murro no estômago do espetador, mas é principalmente uma chapada de luva branca no sistema politico. É um brilhante manifesto antiburocrático, o reconhecimento de que a era digital "por defeito" está desadequada e é discriminatória "por natureza". "Eles vão-te enlouquecer", diz um vizinho, "Vão fazer-te sentir tão infeliz quanto possível, para desistires. É a chave para não os chateares!" Esta é a premissa de todo o filme.


"I, Daniel Blake" é um filme emotivo, sobre um sistema rígido, incapaz de se adaptar às necessidades dos cidadão que diz servir,  e que, na realidade, os aprisiona numa teia de leis e decisões tomadas em gabinetes, longe da prática real das pessoas. Daniel Blake somos todos nós, o "outro" de que Heidegger falava, não impessoal e difuso, mas aquele que importa na vida de cada um e que, na realidade, faz toda a diferença existencial.