sábado, maio 08, 2021

PORTO-DE-ABRIGO PARA O MISTÉRIO

 

UMA MIÚDA COM POTENCIAL: créditos completos


“Promising Young Woman” é a nossa nova espreitadela aos Óscars de 2021, depois de “Mank” e “Nomadland” e deixem-me avisar já, que este não é uma coisinha leve, daquelas que a Academia costuma gostar.  Este filme é negro, deprimente, pesado e lida com temas sensíveis, que não deixarão o espectador indiferente. Mesmo assim, para quem gosta de dramas de mistério, será, certamente, um dos melhores filmes que irão ver este ano.

Depois duma carreira de actriz, quase toda dedicada à televisão, Emerald Fennell arrisca a sua primeira longa metragem como realizadora e argumentista, com uma obra entre o drama e o mistério policial, com uns certos toques de comédia romântica, mas não se iludam, “Promising Young Woman” vai deixar a plateia a pensar e a remoer os remorsos.
 

Por algum motivo, que só vai ficando claro com o decorrer do filme, Cassandra (Carey Mulligan) encontra-se numa cruzada de vingança contra os homens – principalmente as almas caridosas que gostam de tentar ajudar raparigas bêbadas, perdidas em bares nocturnos. Durante o dia trabalha no café duma amiga e, pelo menos uma vez por semana, vagueia pelos bares fingindo-se alcoolizada. Ao contrário do que isto pode sugerir, “A Promising Young Woman” não tem nenhuma violência explicita, o que, vendo bem, serve para adensar o mistério.

Nunca Emerald Fennell nos dá uma pista sobre as acções reais de Cassandra, nem esta revela o mais pequeno pormenor sobre o que realmente faz com os homens que a levam para o quarto. O filme é um perfeito vazio de “gore” – ao contrário do que sugerem alguns cartazes -, mas transmite um sentimento de agressividade permanente que incomoda os espectadores.

Este não é um filme para uma tarde de domingo em família. É um filme adulto, para adultos, sobre um tema pesado e incomodativo. É uma obra inteligente, com diálogos inteligentes, servidos por actores competentes, que contêm cenas que, não sendo sexualmente explicitas, têm grande conteúdo sexual. Como disse ao principio, quem gosta de policiais e mistérios, vai sentir-se feliz por ver este filme.

Nesta ronda que estamos a fazer pelos Óscars, até ao momento este seria o concorrente directo de “Nomadland”. Não usando do pretensiosismo de “Mank”, quase discreto, “Promising Young Woman” é uma espécie de porto de abrigo para os amantes de thrillers. Se gostarem de um pouco de comédia romântica diluída no mistério, então é o paraíso!

 

terça-feira, maio 04, 2021

MUITA PARRA, POUCA UVA

Créditos completos

 


Na sequência da visita aos Óscars de 2021, decidi espreitar “Mank”, o concorrente directo de “Nomadland”. Deixem-me, desde já, deixar um aviso: este filme  é para apreciadores de Orson Welles em geral e de “Citizen Kane: O Mundo a Seus Pés” em particular – a película que concorre usualmente, ombro a ombro, como o melhor filme de todos os tempos.

 “Seven – 7 Pecados Mortais” ou “O Estranho Caso de Benjamim Button” podiam ser cartões de visita suficientes para Devid Fincher, mas, mesmo assim, o realizador faz questão de mostrar que está lá. Enquanto Chloé Zhao tenta passar despercebida em “Nomadland”, Finsher, pelo contrário, é exuberante em “Mank”. Se o primeiro é filigrana sensível, o segundo é pedra bruta partida à força de martelo pneumático.

“Mank” é um daqueles filmes em que ninguém passa despercebido, do director de fotografia aos actores, do sonoplasta ao realizador. Nitidamente feito para concorrer aos Óscars, com interpretações teatrais e jogos de câmara dinâmicos, nada nesta obra vai deixar o espectador indiferente. 

 Durante a grande depressão americana, com o Hitler a subir ao poder na Alemanha, Herman J. Mankiewicz (Gary Oldman), alcoólico mas, ao mesmo tempo, um argumentista brilhante, tem de escrever, em 60 dias, um guião para Orson Welles (Tom Burke), isto enquanto os estúdios lutam por dificuldades e o público está mais preocupado com a fome que com as fantasias da tela.

 O principal defeito de “Mank” parece ser a luta de egos no seu interior, os jogos de câmara contra as interpretações teatrais, a iluminação ou o som contra a fotografia, onde cada um quer ganhar os louros que deviam ser atribuídos ao trabalho de equipa. No entanto,  poucos filmes acerca de cinema atingem o nível de “Mank”, requintado e perfeccionista, onde nada é deixado ao caso, tudo tem um tempo e um objectivo – como a propaganda eleitoral.

 Herman Mankiewicz escreveu mais de 60 guiões, muitos deles não creditados, entre “Os Homens Preferem as Loiras” ou “O Feiticeiro de Oz”. Em “Citizen Kane: O Mundo a Seus Pés”  ainda está para se decidir qual a sua contribuição verdadeira, dividindo os louros com Orson Welles, mas “Mank” não é um filme sobre escritores, é um filme sobre uma América contaminada por “fake-news”, depressão económica e umas eleições, onde um socialista atemoriza os americanos. 

 Voltando à questão dos Óscars de 2021, afinal, o que nos trouxe até aqui, podemos concluir que “Nomadland” dá muitos de avanço. “Mank” é mais parra que uva. Tem um embrulho brilhante para envolver uma prenda cara, mas que custa muito mais do que realmente vale. No fundo, este filme tem um belo corpo, mas falta-lhe alma.

  

sábado, maio 01, 2021

"VANGARD" E AS PAZES COM A ACADEMIA

NOMADLAND: SOBREVIVER NA AMÉRICA: Créditos completos    
 
 

Para começar, tenho a dizer-vos que não devem completar os dedos das duas mãos, as vezes que eu e a Academia de Hollywood estivemos de acordo, mas agora, em dois anos consecutivos, na busca desesperada pelo politicamente correcto, o senhor Óscar deixou-me desarmado, ao premiar um sul coreano e uma chinesa, não conseguindo discordar que eram dos melhores filmes desse ano.

Em 2017, com “The Rider”, Chloé Zhao já nos tinha dado uma amostra do que seria capaz, mas é com “Nomadland” e com a ajuda de Frances McDormand – uma das actrizes por quem eu tenho mais respeito e admiração, só para que conste -,  que nos leva ao paraíso. E aquele “fazer as pazes” inicial é uma metáfora perfeita para este filme, que nos fala precisamente de alguém na busca de fazer as pazes, consigo, com o passado e, como mote principal do filme, com a América que não vemos nas grandes produções de Hollywood.

Durante a crise, a viúva Fern (Frances McDormand) perde tudo, do marido à casa, passando pelo emprego e pela pequena cidade onde vivia – que simplesmente desaparece do mapa -, iniciando uma viagem nómada de caravana – mais uma carrinha adaptada, para ser preciso – a quem chama de “Vangard”. Sem casa – diferente de “sem abrigo” -, Fern penetra num território de vagabundos, inadaptados, descrentes, numa viagem que a faz (re)pensar o passado e (quem sabe?) projectar o futuro.

Chloé Zhao funciona aqui muito mais como documentarista que como realizadora, fazendo um filme gentil, por um lado, mas profundamente intrigante por outro, e a performance de Frances McDormand - compondo um personagem tanto solitário como solidário, deprimido mas obcessivamente optimista -, podendo não ser a melhor da sua carreira, não deve andar lá muito longe, mesmo  que não nos saia da cabeça a Marge de “Fargo” ou a Mildred de “Três Cartazes à Beira da Estrada”.

 Vamos aqui deixar de fora o livro de Jessica Burder “Nomadland: sobreviver na América do século XXI”, que não li e nem sabia que existia até ver este filme, mas o certo é que podemos encontrar referências implícitas nesta obra de Chloé Zhao, de “Uma História Simples” de David Lynch a “Alice nas Cidades” de Wim Wenders, ambos sobre personagens à procura de fazer as pazes com o passado ou com pessoas que deixaram para trás.

Isto que não nos desvie a atenção do que “Nomadland” tem de melhor e mais original: uma misteriosa ficção documental sobre uma América desconhecida, povoada por personagens consumidos por percas profundas e incompatibilidades impossíveis de conciliar com um quotidiano comum, mas, ao mesmo tempo, sobre uma estrada aberta para o futuro, ao volante duma carrinha chamada “Vangard”.


sexta-feira, abril 02, 2021

OLHOS QUE FALAM

RETRATO DE UMA RAPARIGA EM CHAMAS: Créditos completos
 


“Portrait de la jeune fille en feu” é para aquelas pessoas que gostam de não saber tudo, ou melhor, que gostam que não lhes digam tudo e descobrir o sabor da fruta por sua própria iniciativa. Nesse sentido, Céline Sciamma revela-se uma verdadeira manipuladora – no significado mais lato do termo: manipuladora das imagens, manipuladora dos actores e, acima de tudo, manipuladora dos espectadores.

 Tudo neste filme é arte, a começar pelo tema central – não confundir com “principal” -,  mise-en-scène, o cuidado com cada imagem, cada expressão, num conjunto filmado com uma sensibilidade nitidamente feminina – em  minha opinião, nenhum homem poderia filmar este filme desta maneira e não é uma crítica, é a constatação de um facto.

 O que se diz em “Portrait de la jeunne fille en feu” está muito mais nos olhos que no discurso e Céline Sciamma não tem pudor em expor as expressões, os olhares, de onde vão emergindo as emoções, que envolvem o espectador como o vento forte na praia. A escolha da cor de um vestido, torna-se o prelúdio de algo que pode explodir como a corrida para a beira do abismo.

Uma condessa (Valeria Gondino) pretende o retrato da filha Héloise (Adèle Haenel) e para isso contrata os serviços da pintora Marianne (Noémie Merlant). Só que Héloise não quer ser pintada, porque sabe que o quadro é uma oferta ao homem com quem tem de casar e que ela não pretende, nem sequer conhece.

 O que pode parecer uma história vulgar do século XVIII, transforma-se, pela câmara da realizadora como pelas interpretações dos actores  -  todos os actores, note-se - , num exercício subtil de beleza, que explode no ecrã em cada fotograma, deixando os espectadores sem respiração.

 Como devem calcular, durante estes confinamentos pandémicos, muitos filmes já passaram pelo meu DVD. Não tenho a menor dúvida que este deve ter sido um dos melhores. Resta-me acrescentar que a Academia de Hollywood devia estar a dormir, quando deixou para trás “Portrait de la jeunne fille en feu” – considerando que nem nomeado estava para “filme estrangeiro”!

terça-feira, março 02, 2021

CRIME E CASTIGO

 

Qualquer cinéfilo que leia esta crónica, vai estranhar algumas ausência e algumas inclusões. Mas tal como na crónica anterior, onde o conceito de "musical" foi muito alargado, também aqui o conceito de "mistério" foi muito alargado, e por isso se incluíram comédias, ficção-científica, filme negro, suspense.

Qualquer crónica deste género, será sempre uma escolha pessoal e esta é a minha, não porque sejam "os melhores", mas porque serão os mais divertidos neste momento. De qualquer maneira, para fazer o que já foi feito, não vale a pena meter as teclas ao trabalho, não é?

FRENZY - Perigo na Noite (1972) 

“Frenzy” é o primeiro filme inglês de Hitchcock, depois de ter ido para Hollywood em 1939 – onde frabricou os seus grandes clássicos. Este filme tem uma particularidade: é um único filme do realizador que contêm nudez explicita. 

Alfred Hitchcock tem cerca de 60 filmes na carreira e, pelo menos, aí uma dezena são considerados obras-primas do cinema. “Frenzy” não é um deles, mas tem lá tudo: o humor negro, horror, suspense... E o principio de uma tradição que vai criar psicopatas assassinos e senhoras em perigo, estranguladas sem dó nem piedade.

 Ficou icónica a luta do assassino Rusk (Barry Foster) com o cadáver da bela Babs Milligan (Anna Massey), nas traseiras duma carrinha de mercadorias, entre sacas de batatas. 


 CHINATOWN (1974) 


Mais do que ser um filme de Roman Polanski, “Chinatown” é um filme de Jack Nicholson e Faye Dunaway. Tudo o resto é secundário. 

Quando o detective J. J. Gittes (Jack Nicholson) aceitou expor o adultério da fascinante Evelyn Mulwray (Faye Dunaway), não fazia a mais pequena ideia da espiral de crime e mistério em que se ia meter. Mas enquanto ele resvala para o abismo do inferno, nós, espectadores, deleitamos-nos de prazer cinéfilo. 


 CAPRICORN ONE - CAPRICÓRNIO UM (1977) 


“Capricorn One” deve ser o pai de todas as teorias da conspiração, antes de haver teorias da conspiração. É, ao mesmo tempo, um thriller magistralmente filmado por Peter Hyams – que viria mais tarde a filmar “2010: O Ano do Contacto”. 

Se são aquele género de pessoas que gostam de inventar histórias sobre a História, “Capricorn One” é o filme perfeito, para além de ser um excelente thriller, com ritmo, suspense, perigo ao virar da esquina.


  BLOW OUT – Explosão (1981) 


Por puro preconceito, “Blow Out” é colocado de lado pela maioria dos cinéfilos. Preconceito acerca de Brian de Palma – que, sejamos sinceros, nunca foi levado muito a sério – e preconceito acerca de John Travolta – que nunca se libertou do cliché do dancarino “disco”. 

Jack (John Travolta) é um técnico de som e enquanto anda a captar sons aleatórios, assiste a um acidente, onde consegue salvar Sally (Nancy Allen), Só que na audição da fita, vão aparecer segredos que não deviam ser revelados e as peças do mistério vão-se juntando a pouco e pouco, mantendo o espectador tão surpreendido como Jack. 


 

DESPERATLY SEEKING SUSAN - DESESPERADAMENTE PROCURANDO SUSANA (1985)


 “Desperatly Seeking Susan” tanto pode ser uma comédia como um filme de troca de identidades. 

Com um emaranhado de desentendidos, Madonna faz de Madonna (com o nome “Susan”), Rosanna Arquette é Roberta Glass, a entediada esposa dos subúrbios, fascinada pela rebelde sem causa, Aidan Quinn é Dez, o namorado perdido. e Mark Blum é Gary Glass, o marido confuso que não percebe nada do de está a acontecer. Entre os quatro vai desenvolver-se uma sucessão de trocas e confusões, que irão alterar de forma radical as suas vidas. 

 Pelo meio, há um blusão e criminosos à procura dele e de quem o usar.


 SPOORLOOS – O HOMEM QUE QUERIA SABER (1988) 


 Sob pena de estragar o melhor que este filme tem (a surpresa e o medo, muito medo), pouca coisa se pode adiantar sobre “Spoorloos” – a não ser que não vale mesmo a pena verem o remake hollywoodesco, que dá pelo nome de “The Vanishing”. 

O final vai deixar-vos com pesadelos por muitas noites. 

Como li algures, há 2 regras para ver este filme – para além da anterior, de esquecerem a péssima adaptação americana: a primeira, é não verem este filme, se forem pessoas facilmente impressionáveis; a segunda, não saberem nada sobre o que vão encontrar. 

Para mim, é um dos melhores thrillers de todos os tempos, certamente um Top10. Dito isto, estão por vossa conta e risco. 


 GHOST – Espírito do Amor (1990) 


Para além duna das mais sexy cenas de Hollywood, que mete argila e a música “UnchainedMelody” dos Righteous Brothers, “Ghost” vai passando duma comédia romântica para um filme de crime, sem que o espectador perca o sentido amoroso da história. 

Uma Demi Moore absolutamente arrasadora e um Patrick Swayze de partir corações, que se juntam ao melhor que Woopi Goldberg alguma vez conseguiu, fazem o resto, para além dum Jerry Zucker com um sentido exemplar de ritmo e de narrativa. 

“Ghost” é o thriller perfeito: os maus são castigados e os bons ficam felizes para sempre. O que se quer mais? 


 BOUND – SEM LIMITES (1996) 


“Bound” não é para meninos. É um filme intenso, sobre violência e sexo. E tem de ambos. Com 2 milhões de dólares pelo meio. 

As irmãs Lana e Lilly Wachowski não se poupam a esforços, enquanto magicam nas suas cabeças o inexcedível “Matrix”, que há-de ver a luz 3 anos depois. 

Com um orçamento reduzido, locais escolhidos a dedo para não arrasar a tesouraria, “Bound” tem tudo dum policial de série “B”, mas com bónus: duas mulheres-fatais em vez de uma - Jennifer Tilly (Violet, a esposa traidora) e Gina Gershon (Corky, a ex-condenada), que arrasam de sexualidade e malvadez.

 “Bound” subiu nas tabelas devido a “Matrix”, mas merece uma espreitadela independente. 


 THEBRAVE ONE – A ESTRANHA EM MIM (2007) 


Vamos já esclarecer duas coisas: Jodie Foster é uma das minhas actrizes preferidas – senão “a” minha actriz preferida - e não me lembro de não gostar de nada que vi de Neil Jordan – sem qualquer pretensão de ter visto tudo. 

Agora, que já não me podem acusar de nada, vamos a “The Brave One”, que tanto é uma história de vingança, como uma história de descoberta pessoal. Embora emocionalmente destruída pelo assassínio do noivo – consequência do qual, ela própria fica em coma por 3 meses -, é com o tenente Mercer (Terrence Howard) que a luctora de rádio Erica Bain (Jodie Foster) vai estabelecer uma relação de proximidade. 

Não há aqui segredos: o primeiro, investiga os crimes que a segunda comete. O espectador sabe, a assassina sabe, e Mercer vai sabendo a pouco e pouco. Mas o facto de não haver segredos, não significa que não haja mistério. 

Talvez alguns acusem o filme de ter um final demasiado apressado – para dizer o mínimo – em relação às expectativas que vai criando durante as duas horas que dura. Aceito. Mas – em minha opinião, note-se -, isso é um problema que eu consigo encontrar em quase todos os filmes de Neil Jordan. Já não é um defeito, é um feitio! 

 

BOKEH (2017) 


Já aqui falei de “Bokeh” e não vou adiantar muito mais. Muitos perguntar-se-ão, o que faz aqui um filme que tanto pode ser um romance, como um filme de ficção-científica, ou nenhum dos dois. 

O que “Bokeh” tem mais, é mistério. Se sabemos “onde”, não sabemos “quando”, nem “porquê”. No fundo, não sabemos nada. Como todo o filme parece ser sobre nada. E, como diria Pascal, “porque é que tem de haver algo, se o nada é o mais fácil”, não é?